Test & Deafkids (SP)
"Música experimental em plena sexta-feira santa: pode isso?"
Texto por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Desde sempre, o experimentalismo foi o “patinho feio” do cenário musical, sendo algo inacessível, que não se encaixa nas tendências do mercado - muitas vezes, de forma intencional. Por isso, a música experimental, de modo geral, se tornou algo completamente exclusivo do underground, para escutar um som esquisito de verdade, tem que saber procurar. Aqui por terras tupiniquins, dois dos maiores nomes dessa cena são inegavelmente o Test e o DEAFKIDS, ambos internacionalmente reconhecidos por suas pesquisas sonoras. Nessa última sexta (03/04), rolou a primeira edição do No Hope Fest, que além das duas bandas já citadas, reuniu diversos projetos parceiros em uma noite de muito barulho na Casa Rockambole, confira algumas fotos!
Os serviços começaram relativamente cedo, na área externa da casa mesmo, enquanto a galera vinha chegando, com uma apresentação do
Felinto, com participação do
Boris Percus e do
Mariano (Sarine), percussionista do DEAFKIDS. Tendo passado anos no underground paulistano, integrando bandas que iam do metal extremo ao punk, o Felinto, armado com um sintetizador que parecia ter sido retirado direto de um filme de ficção científica, mesclou música eletrônica, dub e muito improviso. Foi nessa mistura do som futurista dele e dos barulhos tribais e viscerais dos percussionistas que a performance foi ancorada, sendo o aquecimento perfeito para o resto do dia.
Assim que eles pararam, na “pistinha”, uma casinha separada do palco principal, tivemos um show conjunto da
Vermenoise e
Cerne, duas das bandas de noise mais consolidadas do nosso cenário. Ambas trazem uma abordagem bastante metalizada para o estilo, e juntando elas, apresentaram uma verdadeira parede sonora implacável ao vivo, com um show apropriadamente banhado à luzes vermelhas. Se tivesse que descrever em uma palavra só, não teria como ser outra: brutal.
Um dos pontos mais interessantes do festival foi a velocidade dos shows. Como estavam divididos em dois palcos, não havia espera entre um e outro, quando as atividades da pistinha paravam, começavam no teatro, e vice-versa. Nesse mesmo esquema, agora no teatro, o palco principal, tivemos uma aula da
Radio Diaspora com participação da
Paola Ribeiro. Formada pela dupla do trompetista e percussionista
Rômulo Alexis e o baterista
Wagner Ramos, a performance deles foi do jazz à música eletrônica, com a voz estonteante da Paola sendo o complemento perfeito.
Voltando ao palco secundário, a KENYA20HZ encantou o público com um set para lá de enérgico, com uma mistura realmente indescritível de estilos, provando que a música eletrônica brasileira vai muito além do Alok. Já tendo passado por lugares como a HÖR Radio e o Boiler Room, experiência ali é algo que não falta, e isso ficou incrivelmente evidente. As interações com o público foram mínimas, como com todos os outros shows da noite - não rolou nem um “oi” - mas não precisou, pois era impossível não ficar completamente vidrado no som dela.
De volta ao teatro, os noruegueses do Sturle Dagsland mostraram exatamente à que vieram, com uma performance longe do normal. Ao longo do dia, até então, era comum de ver o que parecia ser um elfo, vestido de vermelho, com um gorro de orelhinhas, correndo por aí, curtindo os shows e tirando altas fotos com sua câmera: esse era o próprio Sturle, que faz dupla com seu irmão, Sjur. O melhor jeito de descrever o som deles é como uma espécie de alquimia sonora. Eles misturam desde atmosferas élficas que te fazem sentir como se estivesse largado nos fjords noruegueses a gritos que remetem ao Michael Jackson, a sintetizadores oitentistas. Foi algo verdadeiramente cinemático.
Fechando as atividades do palco secundário, veio a Naimaculada, atualmente divulgando seu último álbum, A Cor Mais Próxima do Cinza, lançado em setembro, e preparando o lançamento de mais um EP, com singles já disponíveis nas plataformas. Dentre o cast da noite, eles eram certamente a banda mais “normal”, mas mesmo assim, misturavam sonoridades do pós-punk com rock psicodélico e alternativo. A experiência de vê-los ao vivo é completamente diferente do gravado, com as músicas adquirindo um peso e uma energia que simplesmente não são transmitidos em estúdio. Juntando isso com o caráter mais intimista dos shows na “pistinha”, o clima daquele lugar era realmente de festa, não de show.
Enfim, tivemos direito a uma apresentação transcendental do Test, junto com o DEAFKIDS. Quem já viu uma apresentação de qualquer um deles separadamente sabe a força que eles têm, o Test trazendo uma visceralidade e emoção crua em forma de barulho, o DEAFKIDS sendo a ponte perfeita entre os sons do futuro e os sons do passado, mas juntando os dois, a amálgama musical criada é coisa de outro mundo. Só o fato de ter duas baterias no palco, com dois dos melhores percussionistas da face da terra (Barata e Mariano) tocando ao mesmo tempo já torna o show deles em uma daquelas experiências em que a alma sai do corpo, a junção do João e do Douglas, dividindo os vocais e as guitarras, então, algo indescritível. Detesto falar isso em matéria de show, mas mais do que nunca, esse é um que você precisa ver para realmente entender o que é. Já falei várias vezes e falo de novo: todo mundo tinha que ver pelo menos um show do Test e do DEAFKIDS antes de morrer.



























