FM (SP)
"Energia, entrega, carisma e boa música. Um dos nomes absolutos do AOR britânico, o FM provou por que, 40 anos depois, continuam a se dedicar e deixar tudo no palco, sem dever nada para ninguém, ao mostrar a “malemolência” que ainda carregam consigo".
Texto por: Rato de Show
Fotos por: Nanda Arantes (@nanda_arantes)
Agradecimentos: Hard n Heavy Party
Todo mundo tem aquela banda que sempre está na ponta da língua quando perguntam: “Qual banda deveria ter mais reconhecimento?”. As injustiças, pelo menos, são democráticas, no sentido de que todo gênero, ou subgênero, tem a sua.
Peguemos como exemplo o AOR. Imediatamente a mente talvez te jogue para nomes como Journey, REO Speedwagon ou Toto, consequência da primazia e quase hegemonia norte-americana quando pensamos naquelas melodias cativantes para se cantar a todos os pulmões, com os cabelos aos ventos pela estrada.
Mas não é só na terra do Tio Sam que o rock chiclete foi difundido, com a Europa sendo outro forte polo, com nomes como Magnum e Asia. Mas um outro nome, igualmente importante e que com certeza cai no espaço das injustiças, é o FM.
Banda nascida em 1984, emplacaram fortemente com seu debut, Indiscreet, de 86, que ganhou inclusive um cover lado B de ninguém menos que a Donzela de Ferro, e um sucesso que rendeu diversas tours ao lado de grandes nomes como Tina Turner, Bon Jovi e Foreigner, dentre outros. Quatro álbuns depois, algumas mudanças de gravadora em sequência e a perda do momentum fizeram com que a banda encerrasse suas atividades e se colocasse em hibernação por 12 anos, até o retorno definitivo entre 2007 e 2008, que de lá para cá rendeu outros nove álbuns, sendo o último Brotherhood, de 2025.
Difícil ver uma banda que se manteve com um lineup tão consolidado ao longo dos anos como esses caras. E ainda que, de lá para cá, alguns álbuns tenham funcionado mais do que outros, o legado vivo da banda é indiscutível, definitivamente “correndo atrás” do tempo em que estiveram parados como verdadeiras formiguinhas trabalhadoras.
Listar o FM como uma banda que merecia mais visibilidade é uma noção que se fortalece principalmente após a passagem dos caras pelo Brasil, na última quinta-feira, dia 05, em show único que aconteceu em São Paulo, na Burning House. A proposta não poderia ter sido mais nostálgica: Indiscreet na íntegra, em comemoração aos seus 40 anos, seguido das melhores da banda.
Para uma quinta-feira, pós-AC/DC, era realmente surpreendente o quão cheia a casa ficara, naquele ponto em que ainda era possível se movimentar entre fileiras, mas inegável a existência de uma boa base de fãs. Próximo do horário marcado, subiam ao palco
Jim Kirkpatrick
(guitarra),
Jem Davis
(teclado) e os membros fundadores
Pete Jupp
(bateria),
Merv Goldsworthy
(baixo) e o inconfundível
Steve Overland
(vocal/guitarra).
Apesar da noite dedicada ao álbum de lançamento, abriram com “Diggin’ Up the Dirt”, hit do álbum Heroes and Villains (2015), já chegando com tudo e mostrando que a energia da banda estava com tudo, preparados para levar os presentes a uma verdadeira viagem no tempo. Isso porque, na sequência, já chegava “That Girl”, iniciando a era Indiscreet.
Impossível não incendiar a Casa em Chamas já abrindo com um de seus sucessos absolutos. Todas as cabeças ali presentes cantando o refrão em sincronia, servindo como base para a melodia crescente de Overland que reverberava pela casa, mostrando o auge vocal aos plenos 65 anos, em timbre aveludado perfeito.
Dali em diante, pura festa. Existe algo mágico em um show de AOR que é a capacidade de te transportar para uma energia oitentista, mesmo que você não tenha vivido nessa época. Lógico que o visual glam de muitos do público, ou alguns fios brancos, denunciavam também essa maior imersão, mas até mesmo para a surpresa de Steve, grande parte do público era na realidade jovem. Algo que não passou batido pelo músico.
Mas, se fosse para apontar um “culpado”, estavam nos sintetizadores dos teclados de Jem Davis, junto aos seus “pulinhos de alegria”, a verdadeira textura que permitiu todas aquelas sensações. Sim, existia protagonismo nos demais instrumentos, onde, diga-se de passagem, a equalização estava de parabéns, com tudo tão cristalino que poderia ser confundido com uma execução do disco e não um show ao vivo.
Fosse na presença dos riffs melodiosos ou dos solos apaixonantes, no ritmo constante da bateria e do baixo dançante, mesmo que dito sobre o protagonismo dos teclados, a estrela da noite foi sem sombra de dúvida a ligação entre o público e Steve Overland. Não é à toa a intencionalidade do AOR como um estilo pensado para a rádio. Existia um certo senso de familiaridade no ar, que mesmo que fosse a primeira vez em que você ouvisse uma música, não demorava para você estar cantarolando a melodia ou o refrão junto à banda.
Um “efeito manada” que tomava conta do ambiente, junto dos muitos sorrisos e emoções produzidos também pelo carisma da banda como um todo para com seu público. Sendo um quinteto, o espaço de palco era limitado, então a movimentação era mais restrita. Mas mesmo mais “parados”, os músicos se movimentavam de muitas outras formas. Fosse no olhar, nos gestos, nos sorrisos e no segurar de mãos, onde por uma noite o FM e seus fãs estiveram sintonizados em uma mesma frequência.
E se engana quem acha que a energia do público acabou junto a Indiscreet. Uma sequência que trouxe ainda os hits das eras Thought It Out (1989) e Aphrodisiac (1992) embalou e aqueceu ainda mais o público, que saltava, jogava as mãos para o ar ou simplesmente cantava a plenos pulmões, até músicas mais recentes como “Synchronized”, do álbum de mesmo nome, e “Killed by Love”, do álbum Atomic Generation, que fechou a noite.
Energia, entrega, carisma e boa música. Um dos nomes absolutos do AOR britânico, o FM provou por que, 40 anos depois, continuam a se dedicar e deixar tudo no palco, sem dever nada para ninguém, ao mostrar a “malemolência” que ainda carregam consigo. Uma noite de proporções intimistas para um significativo nome na história da música, que certamente quem se mobilizou para ir não se arrependeu.
Setlist FM
- Digging Up the Dirt
- That Girl
- Other Side of Midnight
- Love Lies Dying
- American Girls
- Frozen Heart
- Hot Wired
- Face to Face
- I Belong to the Night
- Heart of the Matter
- Dangerous
- Synchronized
- Let Love Be the Leader
- Someday (You'll Come Running)
- Does It Feel Like Love
- Bad Luck
- Tough It Out
- Closer to Heaven
- Killed by Love











