Symphony X (SP)

"Com seus óculos escuros, correntes prateadas no pescoço e aquela camiseta semiaberta em V, no pique sexy appeal, o frontman “chegou chegando”, com um sorriso no rosto, sem muitas palavras no início, para entregar ao público o que ele realmente queria: um show de ponta a ponta."

Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Top Link Music

 

Chega a ser redundante pontuar, semana após semana, o quanto que o calendário de shows na capital paulista parece não só cada vez mais cheio, mas também com uma qualidade e curadorias de fazer inveja a qualquer outro canto do mundo. A semana de 15 a 22 de março foi mais um destes episódios, em que em plena semana de Lollapalooza você tinha blocos de pessoas espalhados por diversas casas de show. 


Um destes casos se deu no último dia 20, diretamente do
Tokio Marine Hall, que recepcionou o 11º retorno do Symphony X, grande nome do heavy metal e progressivo americano, que pelos últimos 32 anos proporciona uma intrincada e magnética barreira sonora. 


Tendo no Brasil um daqueles lugares de constante retorno e um relacionamento, se diga de passagem, de carinho mútuo, a turnê que passou pela América Latina veio justamente para comemorar as três décadas de dedicação ao metal. Mas antes de chegarmos lá, o público presente recebeu ainda um digno “esquenta”, nas habilidosas mãos do guitarrista
Andy Addams com seu projeto instrumental.

andy addams em SP

Um dizer sem palavras

Talvez seja um recorte vindo de uma bolha, mas quando penso em projetos de música puramente instrumentais, estes me parecem cada vez mais uma daquelas hoje raras coisas que ainda não foram redescobertas pela geração atual, como, por exemplo, o V/H/S.


E não que não existam, como é o caso, por exemplo, da nacional e recente Falchi, mas é o tipo de coisa que sinto que gera certa estranheza para muitos nos dias de hoje. Mas este não era o caso para o público presente, que justamente gosta e celebra o estranho, o inusitado e o elevativo — tais como estas características das construções e composições do prog.


Então não preciso dizer que Andy foi bem recebido, talvez em um início mais gélido vindo da própria plateia, fosse pelo pequeno número de cabeças, ou porque muitos ali talvez não soubessem o que esperar do guitarrista, mas que, música a música, através do virtuosismo e da simpatia, o colombiano parecia ir conquistando o coração dos presentes.

andy addams em SP

Não sendo um estranho às terras brasileiras, desde sua última vinda ainda no ano passado, onde serviu como abertura para Kiko Loureiro em sua turnê junto ao Marty Friedman para o Theory of Mind, Addams já tinha na manga aquele portunhol sapeca e as palavras-chave como “te amo Brasil” ou “caipirinha”, que podem até ser manjadas, mas que sempre são super efetivas.


Com sua curiosa roupa que mais parece saída de uma corrida de motocross misturado com pisca-pisca de natal, Andy passou pelo seu principal repertório, com músicas como “Everlasting Faith” e “Piedra de Fuego”, e até demonstrando um lado mais nerd, energizando totalmente a plateia ao trazer um medley que contou com diversas músicas de grandes ícones como Journey, Dream Theater e a cereja do bolo: Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z que foi, é claro, aquele ponto alto que colocou todo o público a berrar a plenos pulmões.


Acompanhado de seus parceiros, Elizabeth Schembri no baixo e o monstro Chucho Romus — que inclusive foi ovacionado do começo ao fim, reflexo de sua precisão bruta —, ainda que curta, a apresentação foi extremamente proveitosa, daquelas que vão crescendo com o tempo e que, mesmo utilizando uma carta na manga ou outra, no fim sempre acabam sendo a própria proposta de uma performance instrumental em si mesma: a de, através da música, provocar, estimular e questionar os próprios sentimentos. Seja por meio da nostalgia, ou seja por todo o rol de emoções que podem ser evocadas ao toque de cada nota.

andy addams em SP

30 anos cruzando gerações

Quando as luzes caíram próximo do horário marcado, a já bem mais abarrotada casa de shows vibrava em aguardo ao quinteto que aos poucos ia entrando, formado por Jason Rullo na bateria, Michael Pinnella nos teclados, Michael Romeo na guitarra, Mike LePond no baixo e o inconfundível vocalista Russell Allen.


Com seus óculos escuros, correntes prateadas no pescoço e aquela camiseta semiaberta em V, no pique sexy appeal, o frontman “chegou chegando”, com um sorriso no rosto, sem muitas palavras no início, para entregar ao público o que ele realmente queria: um show de ponta a ponta.


E assim o tivemos. Pela aproximadamente uma hora e quinze que se seguiu, uma verdadeira viagem por três décadas de história, passando por álbuns como The Divine Wings of Tragedy, Underworld, V, Iconoclast, Paradise Lost, The Odyssey e Twilight in Olympus. Som perfeitamente equalizado. Iluminação ligeiramente baixa, dando foco em canhões de luz na medida certa e aquela fumaça de gelo seco que criava todo o drama e imersão possíveis.

symphony x em SP

O público era também um espetáculo à parte. Pense naquele show em que tudo está na medida, mas vem da interação com ele aquele elemento que envelopa tudo e torna a noite memorável. Isso era algo inclusive visível na própria percepção dos músicos. Russell, em muitos momentos, simplesmente deixava de cantar, não por estar cansado ou não conseguir mais atingir uma determinada nota, mas para se permitir ouvir, com uma expressão de muita satisfação, os fãs cantarem as letras e melodias música a música.


Quando o assunto era o departamento da caixa torácica, no auge de seus 54 anos, era impressionante ver os agudos e notas alcançadas pelo vocalista, que hipnotizava e provava o porquê de seu nome ser sempre recorrente nas rodinhas quando se fala dos melhores vocalistas do segmento.


Mas os louros passam longe de ficarem apenas com Allen. Entre a dinâmica divertidíssima entre os Michaels, conversando entre teclado e guitarra, mas também tendo seus próprios destaques — fosse no trabalho de elevar toda a orquestração sonora com os teclados ou nas rápidas, técnicas e complexas linhas de guitarra —, o baixo de LePond servia como uma verdadeira âncora sonora consistente, digna de um homem de bom gosto calçando seus crocs pretos. Nesse movimento, e não menos importante, Jason entre as quebras, viradas e camadas adicionadas com os bater de pratos, mostrando o reflexo de uma cozinha coesa e um lineup que se mantém o mesmo há 27 anos. 

symphony x em sp

O tempo enxuto resultou em apenas uma maior interação com o público, que aconteceu logo após “Nevermore”, ao retorno para o encore, com Allen segurando uma taça do que aparentava ser água (apesar de ele ter deixado em aberto a procedência do líquido), tirou um tempo para agradecer ao público presente e se surpreender com a força da juventude na casa, que o cativava e o fazia interagir a todo momento. Agradecimentos também ao fato dos fãs estarem lá em detrimento de outras possibilidades, como o próprio Lollapalooza (que, ao ser citado, foi inclusive vaiado), reforçando a fidelidade construída ao longo dos 26 anos que vêm ao Brasil.


Finalizando com grandes clássicos como “Without You” e “Set the World on Fire (The Lie of Lies)”, entre momentos intensos, de peso e profunda progressão musical, a passagem do Symphony X reforça o status de uma banda em plena construção criativa, em um show que, sim, talvez para muitos tenha passado rápido demais, mas que certamente teve cada segundo aproveitado.

symphony x em sp

A boa notícia é que está longe de ser um adeus, e sim um “até logo”, especialmente com a notícia de um novo álbum a caminho, após 11 anos desde Underworld (2015). Deixando claro que respeitam seu próprio tempo, em especial o do principal compositor e mente criativa por trás da banda, o líder Michael Romeo, o Symphony X parece bem satisfeito em tomar seu tempo e, dada a média criativa dos projetos lançados, um grande álbum vem aí, consequentemente, uma nova turnê em breve, trazendo o melhor do prog global novamente para nossas terras. 

Symphony x em sp

Setlist Symphony X


  1. Of Sins and Shadows
  2. Sea of Lies
  3. Out of the Ashes
  4. The Accolade
  5. Smoke and Mirrors
  6. Evolution (The Grand Design)
  7. Communion and the Oracle
  8. Inferno (Unleash the Fire)
  9. Nevermore
  10. Without You
  11. Dehumanized
  12. Set the World on Fire (The Lie of Lies)


Não conseguimos confirmar o setlist completo da apresentação de Andy Addams


Galeria - Andy Addams


Galeria Symphony X