Alestorm (SP)

"Chega a ser tolo aquele que acha que um show de folk ou de “temática pirata” não seja um tipo de conceito capaz de entregar ótimos picos e vales e trazer diferentes texturas à mesa."

Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Só o metal e seus subgêneros podem proporcionar momentos como, ao ser indagado que tipo de “som de rock” você vai ouvir, poder dizer “metal pirata escocês”. Parece uma frase quase inventada, não fosse pelo quinteto do Alestorm, banda na ativa há quase 20 anos e, há quase 20, invadindo diferentes continentes para roubar a cerveja e os sorrisos de seus fãs.


Com uma ausência de quatro anos desde sua última vinda, a passagem — que aconteceu exclusivamente pelo porto de São Paulo, no VIP Station, no último dia 26 de março —, apesar de trazer consigo o desafio de uma festividade em plena quinta-feira à noite, provou, pela extensa fila que já se concentrava do lado de fora, que todos os rufiões se reuniam para o que se revelaria ser uma verdadeira baderna.

alestorm em SP

Pouco tempo após o horário marcado, as portas se abriram, sendo rapidamente o espaço da casa preenchido. Até o horário do show não se chegou à sua lotação máxima, mas ainda que houvesse aqueles espaços entre as pessoas, não era pouco o número de cabeças entusiasmadas, vestindo bandanas, chapéus de pirata ou até uma banana.


No palco, um único elemento de cenografia que roubava a cena e denunciava que aquela noite seria dedicada à cantoria, aos “ahoy’s” e ao “andar na prancha”: o inigualável patinho de borracha amarelo, clássico não só para os profissionais de T.I., mas também para os fãs e o próprio Alestorm.


Já próximos do horário, adentravam então Elliot Vernon (teclados), Peter Alcorn (bateria), Máté Bodor (guitarra), Gareth Murdock (baixo) e o seu líder, ou melhor dizendo, capitão, Christopher Bowes (vocal, teclados)

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A casa vibrava, mas pouco espaço havia para prender a respiração, pois a banda já chegou “chegando”, ao abrir o show com um de seus maiores hinos, “Keelhauled”. Com um público vibrante, cantarolante e que não parava quieto nem por um minuto, a banda manteve aquela energização ao máximo ao trazer um setlist bem equilibrado, passando por praticamente todas as fases da banda, com maior destaque para os álbuns The Thunderfist Chronicles (2025), e Sunset of the Golden Age (2014).


De momentos de maior euforia e pura festa, como em “Banana” — para a alegria do nosso amigo fantasiado, que “surfou” entre o público —, “P.A.R.T.Y.” ou o clássico cover de “Hangover”, de Taio Cruz, a momentos mais dramáticos e épicos como em “The Sunk’n Norwegian”, “Under Blackened Banners” e “The Storm”, a sensação era a de realmente vivenciar uma grande aventura e tudo aquilo que ela pode proporcionar: do entusiasmo aos momentos de desafio, do riso às lágrimas. Chega a ser tolo aquele que acha que um show de folk ou de “temática pirata” não seja um tipo de conceito capaz de entregar ótimos picos e vales e trazer diferentes texturas à mesa.

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Texturas essas que eram bem vívidas também nas camadas sonoras, em especial no dueto entre Christopher e Elliot. Fosse entre a voz áspera e direta de Bowes, os guturais potentes de Vernon ou a “conversa” entre teclado e keytar, somados às rítmicas batidas do bumbo de Peter, que ditavam muito bem o ritmo, o resultado era um material muito divertido. E não que Bodor ou Murdock não tivessem seu mérito — afinal, fosse na tarefa de ancorar o ritmo no baixo ou viajar junto com riffs grudentos e solos rápidos, ambos desempenharam muito bem suas funções —, porém é inegável que, somado a tantas camadas e texturas e ao estilo de música próprio dos “chants” ou corais de vozes, diferentemente de outros estilos em que o protagonismo desses instrumentos é mais aparente, no show do Alestorm isso não é algo que se destaque ou se sobressaia necessariamente.


Mas não entenda, meu caro marujo, essa fala como dizendo que ali não havia sal. Muito pelo contrário, as águas salinas da performance do Alestorm vieram também na forma de dancinhas, coreografias, ataques de tubarão (sim, você leu certo) e momentos de interação rápida com o público e, claro, muitas falas sobre o famigerado “néctar dos deuses”, também conhecido como álcool.

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E no departamento etílico, tanto nas músicas — como “Mexico”, “Nancy the Tavern Wench” ou, é claro, “Drink”, cantada logo no retorno do encore, com os tankards em mãos (ou, no caso, long necks ou copos imaginários) —, a bagunça continuou um pouquinho mais, até chegarmos a “Rumpelkombo”, música que fechou a noite, para a frustração de alguns que aguardavam ainda pelo hino — pelo menos para nós brasileiros — de “Come to Brazil”. Houve menção, mas infelizmente não foi dessa vez.


Como uma primeira vez assistindo à banda, deu para entender o porquê de eles atraírem tantos fãs e serem um grande nome da cena folk global. O público se mostrou satisfeito e ligeiramente alcoolizado. Houve interação genuína com os fãs em alguns momentos, inclusive quando, inesperadamente, o patinho inflável murchou do nada, gerando tanto tristeza quanto alegria assim que ele “magicamente” se reergueu. Mas vale ressaltar que, em muitos momentos, a performance pareceu procedural até demais. Apesar do álcool, este não pareceu ter sido suficiente para trazer aquela desinibição que provoca movimentos mais orgânicos, o que em alguns poucos momentos gerava um ligeiro senso de afastamento.

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Mas, até para ir contra tudo isso que acabei de dizer, para quem ainda se animou para um after, era possível ver os membros da banda após o show espalhados pela casa, tirando fotos, conversando e posteriormente até bebendo um goró com quem se mostrou um verdadeiro “inimigo do fim”.



Ao que parece, apesar destes apontamentos, o Alestorm continua a ser um sinônimo de festa quando aporta por nossas praias. Resta saber quando esses “cães sarnentos” darão as caras por aqui novamente, para o que possivelmente será outro momento de pirataria e confusão. 

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Setlist Alestorm


  1.  Keelhauled
  2. Killed to Death by Piracy
  3. The Sunk'n Norwegian
  4. Uzbekistan
  5. Mexico
  6. Under Blackened Banners
  7. Banana
  8. Zombies Ate My Pirate Ship
  9. Hangover (cover de Taio Cruz)
  10. Frozen Piss 2
  11. Magnetic North
  12. Nancy the Tavern Wench
  13. Alestorm
  14. 1741 (The Battle of Cartagena)
  15. The Storm
  16. P.A.R.T.Y.
  17. Shit Boat (No Fans)
  18. Drink
  19. Wooden Leg!
  20. Fucked With an Anchor
  21. Rumplekombo

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