The Varukers (SP)
"Um evento histórico que dificilmente sairá da memória dos presentes."
Texto por: Rogério S. M.
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Buildup Media
As pessoas mudam com o tempo. Algo completamente normal. Ideias, atitudes, ações. O que a gente pensa hoje pode já não ser o mesmo de amanhã. Afinal, estamos sempre buscando evoluir, procurando ser o melhor que podemos. Isso não significa que não exista quem esteja no caminho certo desde cedo. E, quase 50 anos depois, o que você disse pode continuar fazendo sentido e valendo a pena ser dito.
Anthony “Rat” Martin, vocalista e fundador do The Varukers, banda seminal do punk inglês, pode dizer tranquilamente que se encaixa nessa descrição. Afinal, desde 1979 ele canta sobre ideais que continuam fazendo sentido hoje. Isso se não fizer ainda mais do que na época em que foram escritas. E o mesmo vale para o som direto e agressivo que o grupo sempre foi mestre em entregar.
Em mais uma passagem por letras brasileiras, a banda mostra que não só continuava ativa, mas necessária. Seja para reunir fãs de diferentes idades e gerações, seja para agrupar bandas de estilos diversos em uma noite de celebração dos bons ideais. Foi o que aconteceu dia 8 de maio no Cine Jóia, em São Paulo.
A noite começou com a apresentação energética das
Ratas Rabiosas, que praticam o que chamam de “Hardcore Punk Feminista Antifascista”. Não é exagero dizer que, juntamente com bandas como
X-Ray Spex e
As Mercenárias, que há décadas já levantavam bandeiras similares, o Varukers esteve ali na construção dessa semente junto de outros artistas que mostraram o poder das letras de protesto. Portanto, poder juntar as duas em um mesmo evento é bem simbólico. E o trio feminino não decepcionou, empolgando os presentes com sons como "Cenários de Guerra" e "Mulheres Fortes", que fechou a apresentação.
Em seguida, uma virada de estilo para dar o tom de liberdade da noite, tivemos o show do
Asfixia Social. O grupo pratica uma espécie de groove metal mesclado com altas doses de punk, ska e reggae. Contando com um saxofonista e o trompete do vocalista
Kaneda
Mukhtar, o grupo deixou o astral lá em cima com suas letras politizadas e riffs pesados. Mais do que isso, era uma prova de união de estilos que provava, na prática, toda a liberdade do qual o punk sempre pregou. E a banda não decepcionou, com Kaneda descendo do palco para agitar com a galera e o quinteto mandando ver em sons como "The Planet Is Alive", "Baião de Dois" e "Mess Bigger".
Fechando as atrações de abertura, tivemos um show poderoso do trio
Eskröta,
já conhecido também por quem frequenta o underground. Com um crossover cheio de energia, a banda mostrou, mais uma vez, que vem conquistando um público maior a cada apresentação. Isso ficou claro logo em "A Bruxa", que deu início ao show. Comandada pela vocalista e guitarrista
Yasmin Amaral, o powertrio tocou alto e com atitude diversos sons que dialogam com a atmosfera do evento, como a nova "Latina Revolucionária Brasileira" e "Grita", que agitou a galera.
Para coroar uma noite de muita agressividade musical e protesto social, no melhor estilo punk, o The Varukers subiu ao palco sem alarde, sem frescura, detonando de cara "How Do You Sleep?". Rat comandava o espetáculo com o público na mão, se comunicando com gestos teatrais e algumas palavras carregadas daquele característico sotaque inglês, que a galera se esforçava para entender. Tudo com uma energia positiva, alta e animada.
Praticamente sem pausas, o grupo foi emendando clássico atrás de clássico. Contando com o bom som dos PAs, o quarteto não aliviou no volume e mandou ver em sons como "Led To The Slaughter", "Murder" e "Tortured by Their Lies", que fizeram os presentes gritarem e agitarem com toda a adrenalina que o grupo emana. Rat abraçava, tirava selfies e conversava com todo mundo que subia ao palco para cantar e agitar com ele, sem perder uma só linha de voz. Coisa de quem sabe o que está fazendo e o faz há tanto tempo que tem um domínio total em cima do palco.
Com a casa cheia, mas não lotada, os fãs puderam ver uma apresentação mais “solta” da banda, que não deixou a energia baixar em nenhum momento, seja com as músicas ou com o carisma de Rat, sem dúvida um dos grandes frontmen do estilo. Dono de uma voz poderosa, visual característico e simpatia natural, ele tem a rara habilidade de ser agressivo e leve ao mesmo tempo, tornando o show do Varukers um evento único. E dá-lhe clássicos para o público pogar, como "Nothings Changed" e "Massacred Millions".
Só que o Varukers não tem sua relevância depositada apenas no passado. Ao contrário, as produções mais recentes do quarteto possuem qualidade inegável e tornam a discografia do grupo uma das mais consistentes do estilo. Prova disso foi a execução de "Damned and Defiant", de 2017, que contém toda a raiva e poder dos sons mais antigos da banda.
E assim Rat e companhia conseguiam ir de um extremo ao outro da discografia sem deixar de soar coesos, como vimos na sequência com a seminal "No Masters No Slaves". Vale deixar registrado também como a voz de Rat continua tão poderosa quanto em 1983, quando lançaram o debut “Bloodsuckers”. Seu drive ainda tem aquela potência característica, sem vacilar ou arregar em nenhuma linha. Uma voz que envelheceu como vinho.
O público não parava de agitar e subir no palco, dando aquela energia extra em sons como "March Of The S.A.S." e a maravilhosa "Endless Destruction Line". A quantidade de clássicos do Varukers, aliás, é algo que só temos noção exata ao presenciar um show do grupo. "Persistent Resistance" e "Don't Wanna Be a Victim" se juntavam aos sons mais novos como "Allegiance to None" e "Bullets, Bombs & Bodies" sem que percebêssemos como todos esses sons já possuem um espaço reservado no cânone do punk mundial.
Como um presente extra para uma noite tão especial, Rat chama ao palco João Gordo. O vocalista do Ratos de Porão passou o show inteiro curtindo ao lado do palco, esperando sua vez de se juntar com a lenda inglesa. E, claro, quando o momento chegou, ele não decepcionou. Mesmo munido de uma “colinha” com as letras, JG detonou com a banda sons imortais, como "All System Fail" e "Another Religion Another War". Um evento histórico que dificilmente sairá da memória dos presentes. Obrigado, Rat e Varukers!



























