Lucifer (SP)
O Lucifer sabe bem transitar entre o peso sombrio do metal e o agito do rock’n’roll sem perder sua compostura ou soar muito abrupto.
Texto por: Heitor Lamana
Fotos por: Nanda Arantes (@nanda_arantes)
Agradecimentos: Tedesco Mídia e Xaninho Discos
Na noite chuvosa da última quarta-feira, dia 29, São Paulo recebeu a presença do Lucifer – banda de doom metal/occult rock alemã -, finalizando sua turnê latino-americana com muito estilo no palco do Hangar110. Com 11 apresentações no total, sendo a maioria no Brasil (incluindo uma passagem pelo primeiro dia de Bangers Open Air), os músicos atraíram um público relativamente grande mesmo em meio às adversidades de um dia de semana atribulado na maior metrópole do hemisfério Sul. Além deles, também tivemos a banda de rock paulistana Space Grease, trazendo um pouco mais de psicodelia e latinidade para nosso encontro com o portador da luz.
As portas se abriram no horário e tudo indicava que teríamos um evento completamente vazio pela frente – um ledo engano. Embora fosse uma quarta-feira de chuva em uma semana cheia de atrações pela cidade, até o trânsito parece ter colaborado para que tudo ocorresse bem. Conforme fomos chegando perto das apresentações, a rua Rodolfo Miranda – que até então parecia um deserto – foi se enchendo de gente quase de forma sobrenatural.
Seguindo a programação pontualmente, subiram ao palco os músicos da Space Grease. Formada por
Jú Ramirez (vocal),
Franco Ceravolo (vocal e guitarra),
Tonhão (baixo) e
Henrique Bitencourt (bateria), a banda formada em 2020 faz uma mistura do rock dos anos 70 com elementos vindos de vários outros estilos como o psicodélico, stoner, blues, soul e até mesmo metal – juntando na receita a rítmica e identidade latina. Ainda em processo de lançamento de seu primeiro álbum – que será lançado sob o nome
A Kind of Mess - a discografia da banda já conta com 2 singles e também um EP contendo 6 faixas. Para complementar o quarteto, estava o músico convidado
Lucas Melo, assumindo a percussão com maestria.
Promissora, a Space Grease foi uma surpresa muito bem vinda para aqueles que chegaram cedo – conquistando o ambiente com energia e seu instrumental intricado. A junção de chocalhos, tambores e baterias fez da apresentação da banda uma experiência sensorial recheada de informações, mas não de forma indigesta ou poluída e sim fluída – com suas complexidades e nuances. Da voz serena de Jú Ramirez a bateria pujante de Henrique (que também faz um trabalho excelente como guitarrista da Weedevil), todos se saíram muito bem e pareciam saber dominar a harmonia que os regia. Texturizado e psicodélico, o trabalho do grupo merece a atenção e decerto ainda iremos ouvir muito mais dele no futuro.
Não demorou muito após as cortinas se fecharem - em meio aos preparativos entre uma banda e outra - para o ritual do Lucifer ter início. Vivendo em uma rápida ascensão, a banda está se tornando conhecida pela sonoridade influenciada pela música dos anos 70 mas, neste caso, menos experimental. Aqui, as referências claras são Pentagram (inclusive chegando a gravar um cover de Leonard Cohen com o vocalista Bobby Liebling), Blue Oyster Cult, Fleetwood Mac (exceto a parte que os músicos continuam tocando juntos mesmo após o término) e obviamente os precursores do Black Sabbath.
Ainda se tratando do Sabbath, abriram o show com o single "Anubis" – uma evidente interpolação de
Snowblind, do
Vol.4, que não deixa nada a desejar. O Lucifer sabe bem transitar entre o peso sombrio do metal e o agito do rock’n’roll sem perder sua compostura ou soar muito abrupto. A presença de palco da vocalista e guru da banda
Johanna Platow é simplesmente hipnotizante, grudando a atenção do público para si como um transe paranormal digno dos maiores clássicos do cinema de horror. Acompanhando ela estava os guitarristas
Max Eriksson e
Coralie Baier, a baixista
Claudia González Dias e o baterista Kevin Kuhn – todos músicos fenomenais e novos membros da banda, com exceção de
Max (substituindo excepcionalmente
Rosalie Cunnigham, trabalhando em outro projeto).
O time era fabuloso. Seja nas dancinhas e o gingado de Claudia ou nas piadas e encaradas de Kevin – que chegou a fazer um medley com músicas do Iron Maiden, Twisted Sister e Ozzy Osbourne – todos tinham seu próprio glamour e iam, cada um à sua maneira, se destacando muito longe da ideia de músicos contratados ou mesmo subalternos a uma estrela. Igualmente incrível foi o repertório tocado pela banda, passando por faixas como "Riding Reaper" (que leva o nome de uma gravadora fundada por Johanna), "Wild Hearses" e a balada "Slow Dance in a Crypt" – do último álbum, lançado em 2024, Lucifer V.
Encantadora, a apresentação toda foi cativante e respondida com êxtase pelo público. Cada uma das músicas parecia ser a favorita de uma parcela específica espalhada pela plateia, cantando ou balançando loucamente com sua predileta. Se não soubesse que se tratava do fim de uma turnê, diria pela energia da banda que também estávamos na sua primeira apresentação. Depois de "California Sun" – única faixa de
Lucifer II tocada naquela noite –, entraram no encore, onde "Bring Me His Head" deu espaço para um cover absolutamente fantástico de "Goin’ Blind", do
Kiss. Guardada para o final, tivemos "Fallen Angel", gastando todos os nossos resquícios de energia e encerrando a noite gloriosamente.
Com um repertório apaixonante remetendo aos clássicos do rock e heavy metal, o Lucifer encerrou sua turnê com muita pompa e elegância no palco do Hangar110. Clássico, em sua definição, é uma categoria que envolve aspectos como a qualidade da obra, seu reconhecimento e relevância. Ainda é muito cedo para podermos consagrar com segurança a banda como um dos gigantes, porém, é inegável que dos três itens, o primeiro eles já possuem em abundância e estão cada vez mais perto dos outros dois; deslumbrando multidões fanáticas e sendo cultuados como qualquer um dos outros grandes colossos da indústria. De resto, só o tempo dirá e será a prova do alcance que a banda irá atingir.
Setlist
- Anubis
- Ghosts
- Crucifix (I Burn for You)
- Riding Reaper
- Wild Hearses
- Lucifer
- At the Mortuary
- Slow Dance in a Crypt
- The Dead Don't Speak
- California Son
- Bring Me His Head
- Goin' Blind (cover do Kiss)
- Fallen Angel


























