Bangers Open Air 2026 - Sábado

Quente, eufórico, barulhento, com seus desafios, mas, sem sombra de dúvidas, com mais glórias do que qualquer coisa, o primeiro dia do Bangers Open Air veio para mostrar o porquê a América Latina, e em especial o Brasil, é um verdadeiro apreciador do metal.

Texto por: Rato de Show, Heitor Lamana e Priscila de Jesus

Fotos por: @MarcosHermes

Agradecimentos: Honor Sounds, Bangers Open Air e Agência Taga


O último final de semana de abril nos trouxe mais uma edição do Bangers Open Air. Hoje, sem dúvidas, é o maior e um dos mais significativos festivais de metal da América Latina, sendo um ponto de encontro anual dos camisas pretas que viajam do Brasil todo — e alguns hermanos de diferentes países — para este encontro breve, que passa voando, mas que certamente sempre faz um bom trabalho em deixar sua marca.


Mais uma vez, fomos agraciados com uma credencial para os dois dias de evento, reflexo também do contínuo desenvolvimento de nossa página e trabalhos. Para além do nosso credenciamento, tivemos também colaboradores que foram “à paisana”, para se divertir, mas que fizeram questão de contribuir com alguns textos, a fim de que pudéssemos ter êxito em narrar e descrever a experiência da grande maioria de shows que rolaram entre sábado e domingo.


Ainda assim, é importante ressaltar que não conseguimos cobrir tudo, reflexo da grande gama de atividades, shows e lugares para se estar ao longo do festival, onde nossa dinâmica narrativa se dará na sequência de shows vistos ao longo do dia, divididos entre os quatro palcos existentes do Bangers Open Air — Hot, Ice, Sun e Waves. No título de cada resenha, você verá o palco onde ocorreu o show, assim como a nacionalidade e gênero da banda em questão.


Então venha conosco descobrir como foi a edição de 2026 do Bangers Open Air.


Se preferir outro formato, você pode também acompanhar a nossa live no canal Porque!Metal sobre como foi o evento como um todo abaixo.

Bangers Open Air: Onde o metal brasileiro se encontra


Uma coisa que chamou muito a atenção desde o início da edição se deu pelo extenso número de cabeças que já se faziam presentes. Acredito que nem eu, tampouco o festival, esperávamos ter uma adesão tão intensa desde as primeiras horas, através das gigantescas filas que se formavam, fosse na entrada geral, fosse na entrada do lounge ou até dos blind tickets. Tradicionalmente, a sensação dos anos anteriores era a de um evento que, sim, tinha seus números, mas que apenas ao longo do dia, até o meio da tarde, você conseguia de fato sentir a progressão do número de pessoas até uma lotação considerável.


Esse Bangers veio para contradizer essa lógica. Desde o início, o espaço já estava abarrotado até onde os olhos alcançavam, com pessoas esbanjando seus looks de verão, sorrisos no rosto e copos para lá de cheios do líquido dos deuses (também conhecido como cerveja). Essa demanda, somada a um problema técnico na leitura de ingressos, gerou o único transtorno do festival, que resultou em um atraso na abertura dos portões e, consequentemente, em um fluxo retardatário de entrada, o que veio a resultar, para muitos, em uma entrada demorada que acabou por afetar as duas primeiras bandas que abriram o festival: o Korzus, no palco Ice, e o Lucifer, no palco Sun.


Mas a somatória do calor infernal com o estresse de início esteve longe de servir como um balde de água fria para o festival, onde, ainda que existindo essa frustração inicial, tão logo como veio, se foi, pela atenção que se voltava ao melhor que o evento tem a oferecer: shows da mais extrema qualidade.

bangers open air

SUN STAGE: Lucifer (Heavy Metal/Alemanha)


Texto por Rato de Show


A experiente banda de heavy metal clássico e setentista retornou ao Brasil, um lugar quase visto como uma segunda casa, para mais um giro pelo país que resultou também em seu debut no festival. Liderado por Johanna Platow (vocal), o Lucifer acabara de passar por uma reformulação em suas fileiras, contando agora com Claudia González (baixo), Kevin Kuhn (bateria) e Coralie Baier com Rosalie Cunningham nas guitarras — esta última substituída por Max Ericsson para a gira. Sendo também uma banda de maioria feminina, traz um elemento praticamente simbólico a toda a ritualística de seu som.


Ácido, performático, na medida e extremamente caloroso — e não falo do sol —, a banda percorreu seu mais recente repertório, Lúcifer V (2024), com músicas como "At the Mortuary", "The Dead Don’t Speak" e "Fallen Angel". Com um público relativamente enxuto, mas que ia apenas aumentando minuto a minuto, vide as questões de fluxo de entrada acima citadas, o clima fez jus ao nome da banda, onde o calor não afugentou os veteranos que estavam na mais pura empolgação.


Fosse Johanna em seus movimentos performáticos, com as mãos para rezar, agachando, subindo, fazendo contato visual com o público a todo momento e até ungindo a si e ao público; fosse na presença de Claudia, sempre com caras e bocas, girando para um lado ou outro. Os guitarristas estavam um pouco mais contidos, com momentos em que Max simplesmente arregaçava nos solos, mas o grande destaque vai realmente para Kevin na bateria. Não só no mais puro ritmo, o baterista sempre buscava alguém da plateia para fazer caras e bocas, encarando, desviando os olhos e depois sorrindo de uma forma que beirava o maníaco, mas sempre em um viés cômico que fazia com que o instrumento, muitas vezes escondido ao fundo, simplesmente brilhasse.


O carisma competiu com a qualidade da música, fosse durante as pausas em que Johanna “ameaçava” demitir seu roadie, fosse nos momentos em que se dirigia ao público falando sobre morte, sobre o amor e sobre seu ex-namorado, como em "Slow Dance in a Crypt", sempre com um quê mórbido, fúnebre e cômico. Trazendo essa intersecção entre a morte e a vida através da leveza, do pesar e da performance, a banda conseguiu, com sucesso, superar as adversidades do clima e do ambiente — já que a sonoridade arrastada parece pedir por um lugar fechado e escuro como o breu —, fidelizando e criando novos fãs entre aqueles que passaram — e ficaram — para o show.


A banda mostrou por que o rock clássico segue vivo, com seu toque moderno, mas que certamente faz um ótimo trabalho em perpetuar o estilo que deu origem a simplesmente tudo o que iríamos curtir pelo restante do festival. Tendo também um side show marcado para a semana seguinte no Hangar110, a banda reforça seu nome no circuito brasileiro como um daqueles que podem vir quando quiser, que sempre terão pessoas prontas para o bate-cabeça.


Setlist


  1. Anubis
  2. Crucifix (I Burn for You)
  3. Riding Reaper
  4. Lucifer
  5. Wild Hearses
  6. At the Mortuary
  7. Slow Dance in a Crypt
  8. The Dead Don't Speak
  9. California Son
  10. Bring Me His Head
  11. Goin' Blind (cover de KISS)
  12. Fallen Angel 
lucifer no bangers open air

ICE STAGE: KORZUS (Thrash Metal/Brasil)


Texto por Heitor Lamana

Iniciando os trabalhos no palco Ice — debaixo do sol escaldante do meio-dia —, o Korzus se apresentava pela segunda vez com sua nova formação. Ressurgindo como uma fênix depois de ficar um tempo à deriva, a banda ganhou um senso de direção e vitalidade com a presença dos novos guitarristas Jean Patton (ex-Project46) e Jéssica Falchi (ex-Crypta), cujas adições estão catapultando a banda de volta aos holofotes — como uma joia antiga depois de um merecido restauro.


Para aqueles como eu, que viram a estreia dos novatos uma semana antes no Wacken Warm Up Party, a performance da banda estava ainda mais impactante. A energia e o entrosamento dos músicos chegam a ser surreais de tão polidos, o que fez com que o vocalista e fundador da banda, Marcello Pompeu, dissesse: “Parece que tocamos há anos juntos!”.


Falchi estava visivelmente mais solta e à vontade no palco — comparada à sua apresentação anterior —, o que não tem absolutamente nada a ver com sua performance técnica, que continua simplesmente impecável. Por diversas vezes na mídia, a guitarrista chegou a comentar sobre sua paixão e afinidade com o thrash metal e agora demonstra essa atração com muita animação e tranquilidade nos palcos, chegando inclusive a falar diretamente com o público no microfone.


No setlist, clássicos inesquecíveis dos 42 anos de carreira do Korzus, como “Guilty Silence”, “Agony” e o novo single da banda “No Light Within” — que já caiu nas graças do público. Na intro de “Never Die”, Pompeu pediu a todos que se agachassem no chão no aguardo de um sinal. Quando a música efetivamente começou, todos pularam e levantaram a poeira — não havia quem não batesse a cabeça ou se enfiasse nos moshpits após a dinâmica.


Velha guarda do metal nacional, a grande verdade é que o Korzus continua uma potência — se atualizando mesmo após décadas de trabalho árduo e ainda com muito fôlego pela frente. Abrindo o primeiro dia de festival em grande estilo, a banda mostrou muita coordenação e intensidade, reafirmando o seu espaço no meio das bandas nacionais nos palcos principais do país, um feito de impor respeito!


Setlist


  1. Guilty Silence
  2. Discipline of Hate
  3. Catimba
  4. No Light Within
  5. Agony
  6. Victim of Progress
  7. Mass Illusion / P.F.Y.L. / Beyond the Limits of Insanity / Unpredictable Disease
  8. Never Die
  9. What Are You Looking For
  10. Truth
  11. Correria 
korzus no bangers open air

HOT STAGE: Evergrey (ProgPower/Suécia)


Texto por Heitor Lamana

Durante a apresentação do Korzus no Ice Stage, uma aglomeração se formava em frente ao palco ao lado. Buscando garantir uma vaga na grade, muitos fãs optaram por assistir os brasileiros pelo telão enquanto aguardavam pelo show do Evergrey. Conhecidos pelas músicas repletas de apelo emocional — umas com mais peso e velocidade que as outras, mas sempre intimistas —, a banda iniciava os trabalhos do palco Hot divergindo bastante do clima da apresentação anterior.


Falando em contraste, o sol batia direto nos rostos dos suecos — que vestiam trajes pretos —, mas não chegou a quebrar a atmosfera construída pela banda, lembrando muito o show do Lord of the Lost na edição anterior do festival — onde aconteceu a mesma coisa. Calmamente dando “oi” ao público, foram, um a um, conectando os instrumentos e, aos poucos, preparando o clima para “Falling From The Sun”, primeira faixa do disco Theories Of Emptiness (2024). Em seguida, veio a incrível e catártica “Where August Mourn”, do álbum Escape of the Phoenix (2021) — cujo refrão foi acompanhado copiosamente pelos presentes. O vocalista e guitarrista Tom Englund cantava maravilhosamente bem e vinha acompanhado de Rikard Zander no teclado, Johan Niemann no baixo, Stephen Platt na guitarra e do baterista Simen Sandnes.


É interessante notar como o repertório do Evergrey não possui aquelas faixas mais medianas ou fracas, colocadas no setlist apenas para ocupar espaço — todas elas cativam da mesma forma e têm o mesmo peso dentro do show. Vale a pena mencionar e ressaltar outras canções como “Weightless”, “Eternal Nocturnal” e “Call Out the Dark”, que foram tocadas bem próximas umas das outras. Em “King of Errors” (2014), tivemos um lindo e emocionante solo de guitarra feito por Stephen Platt.


No total, o roteiro contou com 10 músicas que aglomeraram ouvintes e causaram um pouco de trânsito no festival mesmo tão cedo, incluindo a nova “Oxygen”. Nela (a última do setlist), os músicos se despediram enquanto a batida da canção — que simulava batimentos cardíacos — se esvaía ao fundo, sob os aplausos do público, contente e emocionado com a apresentação.


Setlist


  1. Falling From the Sun
  2. Where August Mourn
  3. Weightless
  4. The World Is on Fire
  5. Eternal Nocturnal
  6. Call Out the Dark
  7. King of Errors
  8. Architects of the New Weave
  9. Leaving the Emptiness
  10. OXYGEN!
evergrey no bangers open air

SUN STAGE: Violator (Thrash Metal/Brasil)


Texto por Heitor Lamana

O Violator é uma daquelas bandas que divide opiniões pelo seu posicionamento político dentro e fora dos palcos. Sempre que pode, a banda brasiliense faz menções e críticas à política nacional e internacional — o que, para alguns, é motivo de torcer o nariz. No que se refere ao seu som, o grupo faz um thrash metal à moda antiga — cheio de agressividade, velocidade e riffs poderosíssimos. Com três álbuns de estúdio ao longo de seus 24 anos de carreira, os caras subiram no palco do Sun Stage preparados para arrebentar com tudo — e saíram com a missão cumprida.


“Ordered to Thrash” começou a pancadaria. Já de cara deu para perceber que a coluna cervical de cada um dos músicos entraria em estado de emergência — sendo chicoteadas para frente e para trás no bate-cabeça insano que estavam fazendo. Insanidade também pode ser um adjetivo usado para os circle pits que acompanhavam a ferocidade do som na plateia — ocupando quase todo o espaço do Sun Stage e ainda obstruindo um pouco a entrada da passarela para o outro lado do festival.


“O underground chegou!”, gritou o vocalista Pedro Poney no microfone antes de anunciar “Hang the Merchants of Illusion”. Ao lado dele estavam seus companheiros Bone Crusher na bateria e os guitarristas Capaça e Cambito. Tocaram também as músicas “Futurephobia”, do EP Annihilation Process, e “Destined to Die” — do álbum de 2006 Chemical Assault.


Eufóricos, o grupo não parava um segundo sequer de se movimentar no palco, totalmente inquietos. Já na audiência, a violência seguia no moshpit e alguns até improvisavam stage dives — feitos a partir das grades que separavam os que estavam no front row da pista comum. Por mais que a bandeira da Palestina presente no palco já indicasse a orientação política da banda, o teor político se acentuou antes de “False Messiah” e “Endless Tyrannies”, com manifestações e protestos de apoio vindos da plateia.


Frenético e esgoelado, o consagrado Violator fez um arregaço em formato de show debaixo do forte sol daquela tarde de sábado, terminando sua apresentação com êxito total em um verdadeiro manifesto ao underground brasileiro.


Setlist


  1. Ordered to Thrash
  2. Hang the Merchants of Illusion
  3. Endless Tyrannies
  4. Respect Existence or Expect Resistance
  5. False Messiah
  6. Futurephobia
  7. Atomic Nightmare


(setlist incompleto)

violator no bangers open air

PALCO ICE: Feuerschwanz (Folk Metal/Alemanha)


Texto por Rato de Show


Quem diria que a estreia de uma banda que mistura folk metal e medieval, cantando em alemão, seria uma de extremo alvoroço em terras brasileiras? Formada por Hauptmann Feuerschwanz (vocal), Johanna von der Vögelweide (violino/hurdy gurdy), Prinz R. Hodenherz III (vocal, flauta e gaita de fole), Hans der Aufrechte (guitarra), Jarne Hodinsson (baixo) e Rollo H. Schönhaar (bateria), o Feuerschwanz — ou “Bunda de Fogo” (sim, você não leu errado) — provou que não há tempo ruim, mesmo sob sol escaldante, onde os europeus não deixaram a peteca cair, mesmo com um figurino completo com suas armaduras, chainmails e marcas tribais saídas diretamente dos tempos medievais. Com um sorriso no rosto, a barreira da linguagem não impediu a banda de conseguir uma conexão genuína com os presentes.


E que presentes! Uma verdadeira pequena multidão, com rostos pintados, alguns a caráter, com bandeiras e cartazes, se formava à frente do palco em completo alvoroço pela banda. Em resposta, a energia da banda era intensa, poderosa e daquelas que fazem o público não ficar parado por um instante. Fosse em músicas como "Untot im Drachenboot", "Berzerkermode" ou "Valhalla", com melodias que invocavam uma imersão na fantasia, aos contos ao redor da fogueira e aquela energia folk produzida pelo violino e a gaita de fole, a adição de Schildmaid Yennefer e Schildmaid Hela como “animadoras” e dançarinas trazia toda uma atmosfera que é difícil de ver por aqui, mas que não é algo tão raro lá por fora.


Em sua contraparte, músicas como "Drunken Dragon" e "Knightclub" traziam um lado mais eletrônico, de clima de festa que o brasileiro conhece muito bem. Raios, a banda fez até a surpresa de tocar "Dragostea Din Tei" (“Festa no Apê”), talvez o momento mais alto do show, que mesmo quem torceu o nariz para o show parou para cantar junto e soltar a franga, pulando, vibrando e indo de um lado para o outro.


A barreira da linguagem era grande, com os músicos se comunicando em inglês e, às vezes, voltando ao alemão quase que instintivamente. Mas em nenhum momento isso foi um problema. Com fãs que cantavam em alemão e chamavam pelos músicos a todo momento, a banda provou que a língua, o estilo e a proposta já não são mais um fator que gera incômodo ou distanciamento, reforçando que somos muito bem receptivos ao diferente, celebrando e curtindo a cada momento. Curioso ainda ver os membros da banda andando para lá e para cá no festival, parando, interagindo e tirando fotos com os fãs sortudos que acabaram esbarrando com eles.


Setlist


  1. Drunken Dragon
  2. Memento Mori
  3. Untot im Drachenboot
  4. Knightclub
  5. Bastard von Asgard
  6. Name der Rose
  7. Ultima Nocte
  8. Testament
  9. Berzerkermode
  10. Dragostea din tei (cover de O-Zone)
  11. Valhalla
  12. Das Elfte Gebot
feuerschwanz no bangers open air

PALCO HOT: Jinjer (Metalcore/Ucrânia)


Texto por Rato de Show



Doa a quem doer, é inegável que o metalcore vem sendo um sopro de renovação nas fundações do metal, sendo talvez um dos gêneros que mais vem conversando com a juventude. Mesmo sendo um dos subgêneros com menor representatividade nas edições do festival (assim como o metal mais extremo), toda vez que é anunciada uma banda do estilo, os fãs se fazem presentes sem pensar duas vezes.


Natural, então, a grande aglomeração e os gritos por um dos maiores fenômenos da atualidade, o Jinjer. A banda, que retorna a São Paulo depois de um show abarrotado no Terra São Paulo em 2024, se viu outra vez com um público incendiário em suas mãos, onde Vladislav Ulasevich (bateria), Eugene Abdukhanov (baixo), Roman Ibramkhalilov (guitarra) e a força da natureza Tatiana Shmayluk (vocal) fizeram um show digno de headliners.


Diferentemente de todas as apresentações até o momento — fossem aquelas com mais cenografia ou as mais performáticas —, a proposta do Jinjer é totalmente introspectiva e minimalista. Mais introspectiva até do que a “sofrência” do Evergrey, que quebra a complexidade através de melodias e refrões mais chicletes e “acessíveis”. Os ucranianos, por sua vez, abraçam a complexidade, e sua performance se traduz mais em um expurgo dos sentimentos, da frustração e da raiva na pessoa da Tatiana, que era simplesmente uma presença magnética.


Marrenta, delicada e forte, a frontwoman trajava uma bela veste em branco e vermelho no estilo vitoriano, que não só era um contraponto aos momentos de delicadeza — inclusive nas breves interações com o público —, mas também à fúria no gogó nos momentos em que flutuava do vocal limpo ao gutural. Outro elemento simbólico válido de se falar estava no esquema de cores como uma referência ao último álbum, Duél (2025), que teve, inclusive, a maior participação do set, com músicas como "Duél", "Fast Draw", "Hedonist" e "Green Serpent".


Curioso ver o quanto que, ainda que recente, os fãs pareciam polvorosos tanto com essas músicas quanto com as icônicas "Vortex", "Teacher, Teacher!" e "Pisces". Um set potente e ótimo tanto para os fãs mais engajados quanto para aqueles que estavam conhecendo a banda, que até podem ter sentido um leve distanciamento — ainda mais em contrapartida ao show do Feuerschwanz —, mas que é inegável a qualidade entregue.


Se, por um lado, o restante dos músicos era mais “low profile”, com roupas pretas, bonés e deixando a relação banda–público para Tatiana, a entrega de complexidade dos acordes à batida era simplesmente deliciosa de se ver. Em especial, o baixo de Eugene, totalmente marcado, vivo e que denotava todo o peso groovado, que, somado aos pedais duplos, fazia o público — e este que vos fala — não ficar parado.


Fica a lição de casa de que, se depender da entrega de bandas como essa (e a seguinte) e do público, existe, sim, bastante espaço para o metalcore no Bangers Open Air.


Setlist


  1. Duél
  2. Green Serpent
  3. Fast Draw
  4. Vortex
  5. Disclosure!
  6. Tantrum
  7. Teacher, Teacher!
  8. Hedonist
  9. Perennial
  10. Someone's Daughter
  11. Pisces
  12. Sit Stay Roll Over 
jinjer no bangers open air

PALCO WAVES: Marenna (Hard Rock/Brasil)


Texto por Priscilla de Jesus


Como boa estreante no Bangers Open Air 2026, eu cheguei mais curiosa do que qualquer outra coisa, sem grandes expectativas fechadas. E, de certa forma, não era só eu vivendo uma primeira vez ali. A banda Marenna também fazia sua grande estreia no festival, no palco Waves. Confesso que eu não conhecia a banda antes do line-up e fui descobrindo aos poucos, ouvindo aqui e ali para decidir o que entraria no meu roteiro. O Marenna entrou meio assim, na curiosidade, e acabou sendo uma das escolhas que mais fizeram sentido no sábado.


E já adianto, para quem for ler essa resenha, que meu olhar não é técnico. Eu não entendo de estrutura musical nem fico analisando performance nesse nível. Mas, como psicóloga e, acima de tudo, alguém que ama música, eu escuto de outro lugar: do que me atravessa, do que faz sentido no corpo e na emoção. E ali, desde o começo, fez.


Quando o show começou com “Voyager”, eu nem pensei muito. Sabe quando você começa a entrar no clima sem esforço? Foi bem isso. E, para mim, o que mais marcou foi a energia da banda no palco do começo ao fim. Era o tipo de show que dava vontade de levantar, se mexer, entrar mais na vibe. Em vários momentos eu tive vontade de ficar em pé, curtir de outro jeito, mas, como era um auditório e todo mundo estava sentado, eu fiquei meio travada ali, com vergonha de ser a única a levantar. Fiquei sentada, mas com o corpo inteiro querendo outra coisa — talvez um ótimo tema para terapia, inclusive. Mas também um sinal bem claro de que a banda estava conseguindo provocar algo de verdade, não só algo bonito de ouvir, mas algo que se sente.


E aí entram também as letras, que reforçam essa conexão de um jeito muito natural. Em músicas como “Never Surrender”, “You Need To Believe” e “Piece of Tomorrow”, aparece uma linha bem consistente sobre continuar, acreditar, seguir mesmo quando não é fácil. E isso, ao vivo, bate diferente. Não fica só bonito, fica próximo, faz sentido. Em vários momentos, eu tive a sensação de estar ouvindo pequenos lembretes de enfrentamento, daqueles que a gente reconhece na própria vida sem precisar pensar muito.


No fim, o que mais me marcou no show do Marenna foi justamente isso. Eu não precisava conhecer profundamente a banda antes para me conectar. Não foi um show que eu assisti analisando, foi um show que eu senti. E, para mim, é isso que define se algo funciona ou não: o quanto aquilo me atravessa, o quanto faz sentido no corpo e na mente. E o Marenna conseguiu fazer exatamente isso, transformar uma escolha despretensiosa em uma experiência que ficou marcada e com gosto de quero mais.


Setlist


Não foi possível confirmar o setlist da banda até o momento

marenna no bangers open air

PALCO ICE: Killswitch Engage (Metalcore/Estados Unidos)


Texto por Rato de Show



E o fã de metalcore não precisou ir muito longe, apenas pular da direita para a esquerda, a fim de presenciar o retorno de outro nome mundial do subgênero. Tendo feito parte do escalão do Summer Breeze 2024, o KSE retornou para o Memorial da América Latina para saudar o agora Bangers Open Air, trazendo outro show explosivo, energético e impossível de se ficar parado.


Sendo o oposto da proposta do Jinjer, os veteranos atiçaram o público a todo instante, causando os famigerados movimentos de pêndulo, chifres ao ar e, é claro, o que não poderia faltar em um show do Killswitch: moshes e mais moshes do começo ao fim. Exibindo uma formação praticamente intacta desde sua gênese, com Joel Stroetzel e Adam Dutkiewicz nas guitarras, Justin Foley na bateria, Mike D’Antonio no baixo e Jesse Leach no vocal, a banda soube equilibrar bem uma performance que contou com grandes hits e músicas do repertório que tocaram anteriormente, com novas músicas em uma entrega emocional e cheia de intenção.


Equilibrando bem entre seu álbum de maior sucesso, As Daylight Dies (2007), e seu mais recente, This Consequence (2025), músicas como "The Arms of Sorrow", "This Fire" e "This Is Absolution" não puderam faltar na mais pura e perfeita execução, que se mostrou tão bem recebida pelo público quanto as novas "I Believe" e "Broken Glass", mais diretas e no ponto.


Correndo do melódico sentimental para fazer qualquer trabalhador de bem chorar, ao mais explosivo e agressivo drive, Jesse foi um showman à parte como sempre, interagindo a todo momento com o público e sendo, inclusive, o único músico de todo o festival a descer na galera e colocar os fãs para trabalhar no gogó enquanto cantavam juntos em "My Last Serenade", interagindo também com outras bandas, como foi o caso da própria "Aftermath", dedicada ao In Flames, e "My Curse", ao Zakk Wylde.


Do choro ao mosh, a intensidade da entrega do KSE na interpretação de suas músicas e homenagens veio também na releitura de "Holy Diver", assim como da última vez, trazendo potência, energia e celebração ao homenagear um dos principais nomes do metal mundial, Dio. Um show completo de ponta a ponta que reforçou a ideia de que, de tempos em tempos, ter bandas retornando ao festival está longe de ser enjoativo e que elas podem ainda ser um dos principais destaques do dia.


Setlist


  1. Fixation on the Darkness
  2. In Due Time
  3. The End of Heartache
  4. Aftermath
  5. Rose of Sharyn
  6. This Is Absolution
  7. Broken Glass
  8. Hate by Design
  9. Forever Aligned
  10. The Signal Fire
  11. I Believe
  12. The Arms of Sorrow
  13. Strength of the Mind
  14. This Fire
  15. My Curse
  16. My Last Serenade
  17. Holy Diver (cover de Dio)
killswitch engage no bangers open air

PALCO SUN: Crypta (Death Metal/Brasil)


Texto por Rato de Show



E, encostando no palco Sun, próximos ao cair da noite, tivemos outro retorno com o quarteto porreta da Crypta, uma das atuais joias do metal nacional. Tendo participado da primeira edição do Summer Breeze em 2023, a banda chegou com um maior amadurecimento e a inconfundível presença e sonoridade que vêm conquistando os palcos mundiais.


Um verdadeiro momento de celebração, a apresentação contou como uma forma de despedida de seu último ciclo com o álbum Shades of Sorrow (2023), onde a banda aproveitou também para apresentar sua nova guitarrista, a americana Victoria Villarreal. Ainda se adaptando, a guitarrista mostrou total competência ao assumir o manto previamente de Jéssica Falchi, já dando um bom gosto do que está por vir não só em técnica, como também na performance de um digno bate-cabelo.


Sim, ainda não estava lá — talvez um pouco mais de hábito — e com certeza esta se veja totalmente aclimatada, mas um processo que, diga-se de passagem, ocorre de forma leve, com o apoio da gigante fanbase que, inclusive, imprimiu e entregou à guitarrista um “CPF” honorário.


Outra coisa que parece ser parte indispensável do show, fora, é claro, as caras, bocas e monstruosa voz da magnética Fernanda Lira (baixo), ou as rápidas palhetadas e solos de Tainá Bergamaschi (guitarra) e o braço biônico de Luana Dametto (bateria), está justamente no quão fiel, querido e comprado é o público da Crypta. Em pleno festival repleto de atrações internacionais, inclusive competindo com ninguém menos que o Black Label Society, e lá estavam eles: o público que reforça que o metal nacional é, sim, celebrado e tem muito espaço.


Mesclando as novas, como "Stronghold", "Lord of Ruins", "The Other Side of Anger" e "The Outsider", com as músicas mais celebradas como "Death Arcana", "Starvation" e "From the Ashes", o show pontuou não só a alta habilidade performática e técnica das meninas, mas também uma banda que ainda tem muita lenha para queimar, principalmente se considerando estar somente em seu segundo álbum de inéditas.


Setlist


  1. Death Arcana
  2. Lullaby for the Forsaken
  3. Poisonous Apathy
  4. The Outsider
  5. I Resign
  6. Stronghold
  7. Under the Black Wings
  8. Dark Clouds
  9. The Other Side of Anger
  10. Trial of Traitors
  11. Dark Night of the Soul
  12. Starvation
  13. Lord of Ruins
  14. From the Ashes
crypta no bangers open air

PALCO HOT: Black Label Society (Groove Metal/Estados Unidos)


Texto por Heitor Lamana

No finalzinho da tarde, o palco Hot recebeu uma das maiores atrações do dia. Mostrando seus action figures de luta livre momentos antes, Zakk Wylde vinha com o Black Label Society para quebrar com tudo — sempre posturado e imponente com sua imensa coleção de guitarras. A expectativa para seu show era bem elevada, pois sua última passagem pelo país havia sido há 4 anos — ainda em 2022 — e, portanto, um bom tempo longe dos brasileiros.


Grande herdeiro e eterno pupilo de Ozzy Osbourne, o guitarrista aprendeu muito bem com seu mentor como fazer de um show uma experiência inesquecível. Cantando em um lindo pedestal adornado com caveiras e um crucifixo — bem ao estilo entre o sagrado e o profano do próprio Príncipe das Trevas —, chegou já sacudindo os cabelos e dançando em "Funeral Bell". Vestindo suas marcas registradas — seu kilt e colete —, Zakk serviu tudo que o público queria, acompanhado dos músicos Dario Lorina (guitarra), Jeff Fabb (bateria) e John DeServio (baixo), incluindo um solo coreografado por trás da cabeça com Dario.


Mas um merecido destaque da apresentação foi um show à parte feito pela equipe audiovisual do festival, que dividiu a imagem dos telões em várias câmeras simultâneas e gravou sempre os melhores momentos e ângulos dos músicos no palco — um profissionalismo para ninguém botar defeito, digno dos maiores festivais do mundo.


Como não poderia faltar, tivemos grandes hits da carreira do Black Label, como "A Love Unreal", "Suicide Messiah" e a saideira "Stillborn" — todas devidamente groovadas. Além disso, Zakk tocou um trecho de uma de suas obras-primas no período em que estava ao lado do Madman, "No More Tears", cujo refrão foi acompanhado por todos os milhares de presentes que se amontoavam no Memorial.


Após um dos maiores solos de sua carreira — e da década de 90 —, dedicou a canção "In This River" aos lendários membros do Pantera (que também fizeram parte de sua história), Dimebag Darrell e Vinnie Paul, sentado ao piano enquanto o telão projetava a foto dos dois. Da mesma forma, homenageou o seu grande ídolo, amigo e rockstar em sua nova canção "Ozzy’s Song", desta vez fazendo um solo de guitarra para lá de emocionante.


Sem enferrujar um pouquinho sequer, Zakk Wylde e o Black Label Society fizeram uma das melhores apresentações do dia — e talvez do festival como um todo —, entregando muito ritmo, peso e emoção para todos os fãs, não só deles, mas também dos titãs do rock’n’roll que já nos deixaram e fizeram parte de suas histórias.


Setlist


  1. Funeral Bell
  2. Name in Blood
  3. Destroy & Conquer
  4. A Love Unreal
  5. Heart of Darkness
  6. No More Tears (cover de Ozzy Osbourne)
  7. In This River
  8. The Blessed Hellride
  9. Set You Free
  10. Fire It Up
  11. Suicide Messiah
  12. Ozzy’s Song
  13. Instrumental Jam
  14. Stillborn
black label society no bangers pen air

PALCO WAVES: Seven Spires (Symphonic Metal/Estados Unidos)


Texto por Rato de Show


Fazendo sua segunda estreia no Brasil (a primeira durante a Pré-Party), os americanos do
Seven Spires chegavam despojados e simples, apesar do visual todo trabalhado, montando seus equipamentos e já sendo ovacionados pelos que já se seguravam em emoção para a apresentação. Aqueles, ainda, tiveram a oportunidade de ouvir uma rápida passagem de som, com direito a alguns minutos de "Almosttown".


Mas a magia da melodia, da tristeza e da aventura épica do Seven Spires começou mesmo no início real do show, onde, para a surpresa de todos os membros, mesmo com o páreo duro de grandes nomes rodando o festival, o palco Waves se encontrava absolutamente lotado conforme Peter de Reyna (baixo), Jack Kosto (guitarra), Dylan Gowan (bateria) e a inconfundível Adrienne Cowan (vocal) adentravam com "Songs Upon Wine-Stained Tongues".


Carismática, performática e interagindo a todo momento com o público que se aglomerava no peito do palco, com seus olhares ora tenros, ora de fúria, a vocalista faz jus a tantos louros sobre ser uma das maiores potências vocais da atualidade, mostrando um invejável range vocal do mais suave ao gutural mais potente, lembrando nomes como o de Mike Patton no que tange a essa maleabilidade vocal.


Os demais não ficavam para trás, fosse Peter complementando com seu gutural mais rouco, consequência de sua voz grave, ou sua imparável habilidade no baixo, daquelas de se fazer inveja pelo manuseio do instrumento e de se admirar. Jack, um pouco mais acanhado, mas sempre esboçando um sorriso, seguia junto, fosse nos solos eletrizantes ou nos riffs mais compassados que ajudavam a construir toda a estrutura sonora cinematográfica da banda. Dylan não ficava para trás, lembrando muito a postura de Luana da Crypta: mais contida, imerso em seu próprio instrumento, mas uma força a ser reconhecida.


O repertório foi uma mescla dos três últimos álbuns da banda — com exceção de Solveig (2017) —, mas principalmente dando destaque a A Fortress Called Home (2024), que teve músicas celebradas pelo público como "Almosttown", "Love’s Souvenir", "Portrait of Us" e a intensa "Architects of Creation".


Quem foi à Pré-Party foi sabendo a maravilha que seria. Quem não foi e já conhecia a banda, se arrepiou. Mas mais boquiabertos mesmo foram aqueles que foram de supetão, e apenas se entreouviam os inúmeros comentários sobre a banda, em especial a interpretação de Adrienne.


Uma pena, porém, que, por alguma questão de tempo, a última música, "Gods of Debauchery" — justamente a música não tocada na Pré-Party — tenha ficado de fora, com a banda tendo de encerrar de supetão seu show, o que foi realmente bem frustrante, mas que, com certeza, firmou a presença e ainda vai conquistar muito espaço no público brasileiro.


Setlist


  1. Songs Upon Wine-Stained Tongues
  2. Almosttown
  3. No Words Exchanged
  4. Oceans of Time
  5. Unmapped Darkness
  6. Succumb
  7. Shadow on an Endless Sea
  8. Portrait of Us
  9. Architect of Creation
  10. Love's Souvenir 
seven spires  no bangers pen air

SUN STAGE: Tankard (Thrash Metal/Alemanha)


Texto por Heitor Lamana


Um dos grandes nomes do thrash metal alemão, o
Tankard se distancia de seus irmãos pela sua temática — centrada no álcool, bebedeira (e suas consequências), mas ainda com críticas ácidas e bem pertinentes. Irreverente e descontraído, sua performance é leve e divertida, sem perder a essência agitada do gênero. Formado por Andreas “Gerre” Geremia (vocal), Frank Thorwarth (baixo), Andy Gutjahr (guitarra) e Gerd Lücking (bateria), a banda fez uma curta apresentação no limiar da noite de sábado, no Sun Stage.


Festival tem dessas; às vezes entramos em dilemas dificílimos de resolver entre uma banda e outra, às vezes queremos que um show dure para sempre (ou que pelo menos tenha uma duração mais longa que a trilogia Senhor dos Anéis versão estendida). O fato é que nunca estamos satisfeitos, mas essa é a graça — afinal, se tudo tivéssemos, não teríamos o que buscar.


Foi assim que me senti depois daquele show; queria que nunca tivesse acabado. Abriram o set com "One Foot In The Grave", faixa do álbum de mesmo nome lançado em 2017 pela Nuclear Blast. Logo de cara, a presença de palco de Gerre chama muita atenção pela forma cartunesca — e muitas vezes cômica — como ele perambula pelo espaço, zanzando de um lado para o outro ao mesmo tempo em que canta.


Onde quer que olhassem, os auto-intitulados reis da cerveja eram cumprimentados com copos erguidos no ar, cheios das diversas bebidas servidas ali. Não muito tempo depois, rodas etilicamente abastecidas se formaram em homenagem aos músicos durante todo o repertório, mas, conforme fomos chegando no epicentro do alcoolismo — através de clássicos como "Die With A Beer In Your Hand" e "A Girl Called Cerveza" —, outro objeto aparecia na mão de alguns fãs: o sinalizador.


Um clarão vermelho iluminava o cenário. Uma placa apontava para a localização do mosh, onde fãs circulavam, dançavam e acompanhavam as músicas com gritos dirigidos aos céus — tudo, é claro, repleto de muita bebida e etanol. Após uma hora, nos dirigimos ao final do show — e em direção à ressaca — com a autofágica "(Empty) Tankard", felizes com seu refrão e tristes com as últimas gotas de boa música até a próxima banda.


Setlist


  1. One Foot in the Grave
  2. The Morning After
  3. Ex-Fluencer
  4. Rapid Fire
  5. Need Money for Beer
  6. Die With a Beer in Your Hand
  7. Beerbarians
  8. A Girl Called Cerveza
  9. Chemical Invasion
  10. Zombie Attack
  11. (Empty) Tankard 
tankard  no bangers pen air

ICE STAGE: In Flames (Melodic Death Metal/Suécia)


Texto por Rato de Show


Após o emocionante encerramento do BLS, era chegada a hora de outro grande nome internacional fazer sua estreia nos palcos do Bangers Open Air. Tecnicamente já tendo retornado na quinta-feira anterior, com seu side-show na Audio, os suecos do In Flames encerraram as atividades do palco Ice, derretendo-o com intensidade e agressividade.


Abrindo com "Pinball Map", do clássico álbum Clayman (2000), a banda mostrou sua versatilidade, indo do death metal melódico tradicional, direto e sem firulas, ao seu som mais atual, emotivo, cheio de tensão e de breakdowns. Faixas como "In The Dark", "Meet Your Maker" e "The Great Deceiver", do mais recente Foregone (2023), reforçaram a atual fase que a banda vive — muito bem, por sinal — ao aliar o lado melódico e virtuoso das guitarras dobradas ao emotivo, catártico e groovado do metalcore.


Com Björn Gelotte (guitarra), Jon Rice (bateria), Liam Wilson (baixo), o gigante Chris Broderick (guitarra) e Anders Fridén (vocal), o que a banda tem em simplicidade de vestuário e falta de uma cenografia complexa eles mais que compensam na interpretação, interação com o público e aquela energia que é simplesmente impossível de ficar quieto ou de não querer entrar em um mosh.


O liquidificador humano que rodopiou sem parar em músicas como "I Am Above, Take This Life" e "Only for the Weak" era meramente um reflexo da intensidade do vocalista, que não parava quieto um minuto, correndo pela extensão do palco, assim como seus companheiros, que entregavam uma aula de performance clássica e vigor invejável.


Um show que replicou muito da magia vista no side-show de quinta-feira, com o som mais uma vez limpo, equalizado e arrebatador, se mesclava ao coro de vozes em gritos pela banda, que tocava uma pauleira atrás da outra, fazendo o coração da galera do metal moderno ficar mais quentinho naquela noite.


Provando que as bandas podem evoluir e mudar sem perder sua essência, mesmo após 35 anos de estrada, o In Flames parece mais vivo do que nunca, entregando um show digno e cumprindo seu papel no Bangers Open Air.


Setlist


  1. Pinball Map
  2. The Great Deceiver
  3. Deliver Us
  4. The Quiet Place
  5. In the Dark
  6. Voices
  7. Cloud Connected
  8. Trigger
  9. Only for the Weak
  10. Meet Your Maker
  11. State of Slow Decay
  12. Alias
  13. The Mirror's Truth
  14. I Am Above
  15. Take This Life 


in flames  no bangers pen air

HOT STAGE: Arch Enemy (Melodic Death Metal/Suécia)


Texto por Heitor Lamana


Por motivos de saúde do vocalista Dee Snider, o Twisted Sister cancelou sua presença nesta edição do Bangers Open Air. A banda iria se apresentar no sábado, dia 25, com sua turnê de reunião — uma surpresa relâmpago que gerou muita ansiedade nos fãs. O vazio deixado era grande, afinal o festival havia perdido um dos seus headliners. A expectativa para o anúncio do seu substituto era ainda maior e, quando fomos informados de que o Arch Enemy encerraria o primeiro dia de festival, uma nova dúvida surgiu: quem seria a vocalista da banda?


Acontece que, no final de 2025, o Arch Enemy havia se separado da sua então vocalista Alissa White-Gluz e não havia anunciado ninguém para entrar em seu lugar. Com o nome da banda já estampado nos cartazes do festival, muito se especulou sobre a identidade de sua sucessora. Chegou-se a cogitar que a vocalista Mayara Puertas seria a escolhida — graças a um post feito pela cantora em sua conta do Instagram utilizando uma música da banda. Posteriormente, a mesma veio a público negar os rumores, afirmando simplesmente ser muito fã do grupo. Outra especulação que movimentou a internet foi a da possível volta da antiga vocalista e atual empresária da banda, Angela Gossow — que também negou os boatos de retorno ao cargo.


O mistério só foi solucionado em fevereiro deste ano, menos de 3 meses para o evento, quando tivemos o anúncio da americana Lauren Hart (ex-Once Human) para preencher a vaga deixada por Alissa. Depois de todo esse furdunço, estávamos diante de duas situações inéditas: a primeira vez que uma banda de death metal seria a atração principal do Bangers Open Air e a primeira aparição de Lauren como vocalista do Arch Enemy no Brasil.


Enquanto o In Flames fazia seu show no Ice Stage, uma grande cortina com os dizeres “Pure Fucking Metal” escondia toda a movimentação por trás do palco do Arch Enemy. A situação remeteu à montagem de palco do Mercyful Fate dois anos antes no mesmo local, no então Summer Breeze Brasil — que também teve o uso da artimanha para esconder os bastidores.


Era chegada a hora da prova real. A cortina despencou e lá estava a novata gritando “Raise your fucking hands!” aos presentes durante "Yesterday Is Dead and Gone". A recém-contratada se mostrou mais do que apta para o trabalho, porém o volume do seu microfone parecia estar mais alto do que deveria na maior parte do show. Intercalando músicas de ambas suas antecessoras, como "The World Is Yours", "Ravenous" e "War Eternal", seguiram a apresentação com "Dream Stealer", primeira faixa do mais recente e último disco de Alissa com a banda — Blood Dynasty, lançado ano passado.


Também tocaram o novo single "To the Last Breath" — lançado em fevereiro deste ano junto com o anúncio de Lauren como vocalista —, que já tinha causado um rebuliço nas redes sociais quando o guitarrista Kiko Loureiro insinuou publicamente plágio de uma de suas canções. A contenda deu o que falar, gerando respostas por parte do guitarrista e fundador da banda Michael Amott e de Angela, ambos contrariando a fala do brasileiro.


Quanto ao repertório, ele se distribuiu bem ao longo de toda a discografia da banda, abordando faixas de todas as fases, incluindo a era Johan Liiva — na música "Bury Me an Angel". Em "My Apocalypse", o uso de pirotecnias no palco junto de um radar no telão tornou a cena uma experiência quase que cinematográfica, belíssima de se ver ao vivo e um dos pontos altos da noite. "The Eagle Flies Alone", "No Gods, No Masters" e "Nemesis" também fizeram parte do roteiro, que ao todo teve 15 músicas.


Ovacionada sempre que possível, Lauren se mostrou emocionada e chegou a chorar, tendo de fazer uma breve pausa para se recompor em meio aos aplausos e gritos com seu nome — encantada com o acolhimento dos brasileiros, do qual já havia ouvido falar. Pode ser que isso seja, sim, fruto da incerteza da vocalista, como pode ser possível que seja simplesmente uma reação espontânea frente ao público latino-americano — conhecido por ser muito mais receptivo e caloroso que o restante do mundo. A apresentação, embora não tenha sido a primeira da cantora nessa nova empreitada, simbolizou um rito de passagem para o Arch Enemy como um todo — alçando novos voos enquanto reverenciava todo o legado construído pela banda.


Projetando a mensagem “Tamo junto Brasil!” no telão, Joey Concepcion (guitarra), Sharlee D’Angelo (baixo), Daniel Erlandsson (bateria), junto de Lauren e Michael Amott, deixaram o palco, encerrando o primeiro dia de festival nem um minuto além do prazo determinado — ao contrário do que matérias sensacionalistas noticiaram no decorrer da semana. Mostrando que o metal extremo tem espaço e força em eventos de grande porte, o Arch Enemy entregou mais do que um show de substituição; entregou “Pure fucking metal!”.


Setlist


  1. Yesterday Is Dead and Gone
  2. The World Is Yours
  3. Ravenous
  4. War Eternal
  5. Dream Stealer
  6. To the Last Breath
  7. Blood Dynasty
  8. My Apocalypse
  9. Bury Me an Angel
  10. The Eagle Flies Alone
  11. No Gods, No Masters
  12. I Am Legend / Out for Blood
  13. Dead Bury Their Dead
  14. Snow Bound
  15. Nemesis
  16. Fields of Desolation
arch enemy  no bangers pen air

WAVES STAGE: Overdose (Thrash Metal/Brasil)


Texto por Heitor Lamana


Enquanto o Arch Enemy finalizava seu show e os trabalhos do palco Hot, uma outra apresentação tão importante quanto se iniciava no Waves Stage. Lotando pouco a pouco o auditório Simón Bolívar, o Overdose vem de uma das melhores levas que o metal nacional já teve. Juntamente com o Sepultura, a banda de Belo Horizonte lançou o split Bestial Devastation / Século XX em 1º de dezembro de 1985, pela lendária Cogumelo Records — amplamente aclamado pela crítica. Mantida pelo único membro fundador ainda atuante na banda — o grande Cláudio David —, o show percorreu toda a carreira do grupo, tocando seus clássicos, mas ao mesmo tempo dando espaço ao novo, sem perder por um segundo a qualidade.


Embora fosse mais cômodo assistir ao show sentado nas poltronas do espaço refrigerado — principalmente após um dia todo de evento extremamente quente —, a grande maioria optou por prestigiar a banda diretamente em frente ao palco, com muita disposição. Muitos chegaram a correr de todos os lados do Memorial da América Latina antes que a capacidade máxima do espaço fosse atingida e as vagas se esgotassem — pois, afinal, estávamos falando de uma apresentação histórica de uma banda histórica.


Além de Cláudio David, a atual formação do Overdose é composta pelos músicos Filipe Duarte (baixo), Diêgo Quites (guitarra), Tiago Vitek (bateria) e o barbudo Vitor Santos (vocais). Vestindo um paletó sem camisa, uma boina e um kilt (fazendo desta a edição do Bangers com maior número de kilts por metro quadrado, graças também ao vocalista do Angra, Alírio Netto, e do guitarrista e frontman do Black Label Society, Zakk Wylde), Vitor era uma verdadeira fera no palco — pulando e gritando violentamente ao longo de todo o show.


No repertório, faixas antigas como "Zombie Factory" e "Violence" — do álbum Circus of Death (1992) — ficaram lado a lado de músicas mais recentes como "Século XXI" — uma alusão à música que nomeia o split de 85 — e do single "João Sem Terra", lançado pela banda em 2024. Ainda chegaram a tocar "Rio, Samba e Porrada no Morro", retirada do álbum Progress of Decadence (1993), e "How to Pray" — do álbum Scars (1995).


O tempo passou extremamente rápido. Por alguma questão envolvendo o horário, os músicos tiveram de cortar uma canção do roteiro para poderem dar espaço para "Anjos do Apocalipse" — que dispensa apresentações — antes de se despedirem, o que causou um alvoroço nas apertadas rodas presentes de frente com as poltronas. Ovacionados ao saírem, o Overdose fez uma apresentação histórica, assim como a banda, e foi um excelente acerto por parte da equipe de curadoria do Bangers — dando espaço ao que há de mais memorável e autêntico em nossa cena.


Setlist


  1. Manipulated Reality
  2. Children of War
  3. How to Pray
  4. Anjos do Apocalipse


(setlist incompleto)

arch enemy  no bangers pen air

Quente, eufórico, barulhento, com seus desafios, mas, sem sombra de dúvidas, com mais glórias do que qualquer coisa, o primeiro dia do Bangers Open Air veio para mostrar o porquê a América Latina, e em especial o Brasil, é um verdadeiro apreciador do metal.


Terminando cedo o bastante para os soldados se retirarem do campo de batalha para se recomporem para mais um dia de agito, rodas e novas vivências, é impossível não sair do festival esboçando — para além do cansaço — um sorriso de orelha a orelha e se sentir, ao mesmo tempo que realizado, de certo, até orgulhoso por fazer parte da construção de um dos marcos anuais do calendário do metal.


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