Roy Khan (SP)
"Como disse uma fã em dado momento: “Você deveria se mudar para cá a essa altura”. Uma fala que, para além da brincadeira, evidencia essa relação que sempre foi forte, mas que parece mais solidificada."
Texto por: Rato de Show - @ratodeshow
Fotos por: Renan Facciolo
Agradecimentos: TRM Press, Arena Produtora e Agência Artística
Como orgulhoso careca que sou, não tem o que me deixe mais feliz do que ver grandes personalidades cuja testa vai até a nuca para me sentir representado. Existem aquelas figuras clássicas, dos brucutus de filmes como Jason Statham, The Rock e Vin Diesel. Mas mais legal ainda é ver a quebra do estereótipo com carecas que tiram a força não do muque, mas do gogó.
Rob Halford, Kerry King, Scott Ian, Ralph Scheepers (apesar de esse também ter muque), dentre tantos outros que, ok, talvez você argumente sobre como esses tiveram suas madeixas e foi o fator genético e o tempo que lhes roubaram isso, mas é sobre isso que você, não careca, não entenderia: o processo de aceitação e a força encontrada em se tornar uma esfera do dragão.
De tantos talentosos carecas por aí, gostaria de falar de um que sempre salta à mente quando o assunto são vozes marcantes do metal e que vem sendo cada vez mais presente nas terras tupiniquins: Roy Khan.
Marcado por sua passagem pelo Kamelot e com um acervo igualmente incrível junto ao Conception, foi em 2025, durante a turnê comemorativa do Temple of Shadows, realizada por Edu Falaschi, que o nome de Roy surgiu não apenas como convidado especial, mas como uma atração que estrearia sua carreira solo, quando, naquele dia, se descobriu também o incentivo do músico brasileiro para que aquilo acontecesse.
Uma noite de sucesso, mas que ficou com aquele gostinho de “quero mais”. Avançando para o
Bangers Open Air 2026, a cena se repetiu. Khan mais uma vez performou magistralmente no festival, novamente deixando os fãs com um sentimento de não saciedade. Mas lá tivemos uma pista. “Até breve”, disse Roy.
Realmente, pouco tempo depois, Roy Khan anunciou a The Black Halo and Beyond Tour pela América Latina, com cinco shows no Brasil. Nem é preciso dizer que o ânimo do fã foi às alturas, com a vinda do músico norueguês não somente celebrando o passado, mas também com o “Beyond” significando tanto músicas de álbuns para além de The Black Halo, mas o novo capítulo sendo preparado em termos de um primeiro álbum solo, que chega no próximo ano.
O mesmo ânimo se refletiu na noite do último sábado (17), no Carioca Club, com uma fila que dava a volta no quarteirão, tomada pela ansiedade dos camisas pretas. A abertura ficou a cargo de não outros senão o Maestrick, banda que já vem acompanhando Roy Khan como sua banda ao vivo desde o show com Edu e que, para qualquer pessoa que pudesse questionar o porquê, bastou ouvir seu som autoral para entender.
Formado por Fábio Caldeira (vocal), Renato Montanha (baixo), Chalers Soulz (teclados) e Chris Oliveira (bateria), para a noite, os músicos foram acompanhados pelo guitarrista brasileiro e membro oficial da banda solo de Roy, Caio Kehkayan. Uma noite “em família”, para dizer o mínimo.
Teatralidade, carisma e esmero sonoro são algumas das qualidades encontradas em uma das cozinhas brasileiras mais criativas da atualidade. De forma que sempre era possível perceber diferentes reações da plateia conforme estes avançavam em seu compacto, porém assertivo setlist, que passou pelas diferentes fases da banda e, tal qual uma boneca russa, sempre revelava mais uma faceta de si.
Fosse em “Upside Down”, que evoca uma mistura de Dia das Bruxas com circo, ou “H.U.C.”, do álbum de estreia Unpuzzle! (2011), que envelhece como vinho com brasilidade e um prog de primeira. Aqueles que ainda sentiam “entender” a banda eram logo surpreendidos com músicas como “Penitência” e “Agbara”, trazendo o português e letras que te pegam no âmago, te fazendo lembrar de suas raízes.
Deixando o melhor para o fim, “Across the River”, aquela música que parece uma trilha sonora emocional depois de um momento triste em um filme da Disney, e “Zion”, música recém-lançada que aponta para o futuro brilhante que a banda mira, àquela altura, faziam com que o público já não fosse dividido entre quem era fã e quem estava conhecendo o Maestrick, mas se tornasse uma unidade de apreciadores de seu som.
Isso ficou ainda mais em evidência em “Ethereal”, minha favorita por ser aquela música de sair do chão, em que banda e público se tornam um, cantando a plenos pulmões o refrão, ao qual até o marinheiro de primeira viagem se rendeu já na segunda vez.
Setlist
- Upside Down
- H.U.C.
- Boo!
- Penitência
- Agbara
- Across the River
- Zion
- Ethereal
Com as cortinas cerradas e sem demorar tanto para se abrirem novamente, quero tirar um momento para elogiar a produção da noite por proporcionar, em pleno sábado, uma abertura da casa às 17h, com show de abertura às 18h e o principal logo às 19h. Que maravilha foi poder chegar em casa antes das 23h.
Voltando deste rápido desvio de assunto, como disse no início, o reabrir das cortinas trouxera a jornada dupla do Maestrick em palco, mas agora como apoio do homem da vez, juntamente à também convidada para exercer os vocais de apoio femininos, Zoë Marie Federoff, do Catalyst Crime e mais conhecida por sua passagem marcante (e conturbada) pelo Cradle of Filth.
As primeiras notas de “When the Lights Are Down” começavam, deixando o público já polvoroso, conforme a cortina de fumaça recaía sobre o palco, deixando todos os músicos sob um manto de mistério junto às luzes escuras, das quais uma sombra esguia emergia junto aos gritos dos fãs. Roy Khan aparecia com seu visual quase cenobita, entregando uma intensa apresentação que se manteria até o fim da noite.
A atmosfera sonora intensa e versátil de The Black Halo, a estrela da noite, casava perfeitamente com o ambiente e com os músicos que davam tudo de si. Roy era uma verdadeira força da natureza e, mesmo que um tom abaixo de como cantava há longínquos vinte anos, sua proeza e presença vocal eram inegáveis. Pense em toda uma força sendo aplicada em um só lugar. Não digo no sentido de forçar a voz, mas sua forma de cantar é uma em que você sentia e via toda a energia e intensidade interpretativa sendo alocadas em sua voz. Khan era a síntese da expressão “entregar tudo de si”.
Entrega essa que não se restringia somente a Roy, mas também ao hábil trabalho do Maestrick e, em especial, de Caio, que dava um show não só de agilidade, mas também de carisma entre caras e bocas, sempre se fazendo presente. A sincronia do restante da banda era simplesmente no ponto, não entregando apenas algo fidedigno, mas acompanhando também em intensidade e performance.
Assim, passamos por “Soul Society” e “Moonlight”, ainda de The Black Halo, desviando momentaneamente com “Center of the Universe”, do álbum Epica (2003), outro grande hit, que deixava claro como a noite seria basicamente uma disputa vocal entre Khan e seu público, que, em coro, cantava dos refrões às estrofes simplesmente de todas as músicas.
Retornando ao álbum principal com “Abandoned”, foi logo na sequência, em “The Haunting (Somewhere in Time)”, que pudemos pela primeira vez presenciar um maior destaque de Zoë, saindo do fundo e ficando lado a lado com Roy, dando uma verdadeira aula de canto lírico com uma voz tenra, limpa e que preenchia totalmente o local. A interpretação de ambos era bonita de ver e nem parecia que esta era a primeira vez que faziam isso.
Passado mais um pouco e talvez como uma forma de reconhecimento pelo apreço e carinho do público brasileiro, Roy surpreendeu a muitos com uma surpresa sobre a qual já havia dado pistas nas redes sociais: uma música que ele não cantava ao vivo havia mais de 20 anos.
Os primeiros acordes mediterrâneos de “Nights of Arabia”, de The Fourth Legacy (1999), ecoavam pelo Carioca junto aos barulhos de espanto do público pelo resgate de nostalgia que o cantor fazia em palco. Desenferrujando aos poucos, visto que era uma música que banda e cantor mal haviam tido tempo para treinar, parecia que o público fazia o mesmo, afiado junto a Roy.
Encerrando o bloco principal, uma dobradinha do álbum
Karma (2001) trouxe duas músicas impossíveis de não estarem no set: a própria autointitulada e “Forever”. Música essa que também trouxe um dos pontos de destaque da noite, novamente com o dueto entre Zoë e Roy, mas que, aqui, ao final da música, teve uma menção à cantora, com Roy pedindo o calor do público, que devolveu em uma intensidade tão grande que a cantora ficava visivelmente emocionada, talvez como um reflexo de algo entalado em sua garganta, já que sua última vinda a São Paulo tinha sido até então aquela ligada aos problemas que levaram à sua saída do Cradle of Filth.
Retornaram com tudo com “Ghost Opera”, do álbum Ghost Opera: The Second Coming (2007), junto a “Epilogue”, uma música bônus da versão japonesa de The Black Halo que soa algo tão lado C que você não imaginaria um coro tão ativo de pessoas cantando junto, como rolou. Finalizaram com “March of Mephisto”, poderosa e marcante música que surpreendeu por trazer esse lado mais agressivo, com um gutural de Zoë que claramente não é o seu forte, mas que não foi algo que quebrou a magia do momento.
Não foi um daqueles shows recheados de conversas e prosas, mas, nos poucos momentos, entre os “obrigado” de sotaque marcado e as contínuas falas de carinho de Roy, entre as músicas ele ainda tirou tempo para autografar alguns cartazes e até um tênis, o que provocou surpresa e uma risada genuína nele. Visivelmente uma pessoa de alto ânimo e espírito e de bom coração, ele também tirou tempo para apresentar sua banda, falando nominalmente o nome e o sobrenome de cada músico e deixando claro que um breve retorno aconteceria após o lançamento do futuro álbum solo de estreia.
Como disse uma fã em dado momento: “Você deveria se mudar para cá a essa altura”. Uma fala que, para além da brincadeira, evidencia essa relação que sempre foi forte, mas que parece mais solidificada e que guarda um brilho de futuro tão forte quanto o refletor branco na careca de nosso mestre do melódico.
Setlist
- When the Lights Are Down
- Soul Society
- Moonlight
- Center of the Universe
- Abandoned
- The Haunting (Somewhere in Time)
- Rule the World
- Memento Mori
- Nights of Arabia
- Karma
- Forever
- Ghost Opera
- Epilogue
- March of Mephisto











