Druidess (Birmingham, UK)
"Só basta querer sair de casa e prestigiar o som autoral para achar o que pode se tornar sua próxima banda favorita."
Texto por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Palmer Turner Overdrive
De todas as cidades do mundo, podemos dizer com certeza que, pelo menos para o metal, Birmingham figura entre as mais importantes. Não só deram origem a pilares do gênero , como Judas Priest e, óbvio, o Black Sabbath, como também foram o primeiro palco de bandas que marcaram época em estilos mais nichados, como o Benediction, lenda da escola mais vagarosa e brutal do death metal e o Napalm Death, gênios do grindcore.
Já hoje em dia, pela Inglaterra toda, está acontecendo um “revival” do som do proto-metal, aquele mesmo que o Black Sabbath ajudou a popularizar, com diversas bandas voltando a fazer músicas sombrias, puxadas para o stoner, com temática de terror folclórico. De todas as bandas desta nova cena, de longe a que teve maior expressão foi o
Green Lung, mas o underground inglês está borbulhando com nomes interessantíssimos.
Um destes é a
Druidess, banda formada em Newcastle Upon-Tyne pouco depois da pandemia, se descrevendo como “Iommi Worship”. Com tudo isso em mente, seria praticamente heresia eles fazerem uma turnê pelo Reino Unido e não passar por Birmingham. No começo deste mês, fizeram exatamente isso, tocando no
Scruffy Murphy’s, bar de rock super tradicional da cidade, como banda de abertura para a
Morag Tong, que por sua vez, é um nome conhecido na cena do doom inglês, na ativa há mais de 10 anos.
Fazia um certo frio (pelo menos para o padrão de um brasileiro recém-chegado na europa) naquela sexta-feira, e a cidade, que normalmente já é um tanto erma, parecia estar um tanto mais tensa, visto que estava ocorrendo a conferência anual do partido convervador inglês.
Chegando no bar, localizado na esquina de uma rua que na hora não estava tão movimentada, me deparei com uma estrutura que é extremamente comum na Inglaterra, no piso térreo, a casa funcionava como bar normal mesmo, aberto ao público desde cedo, com mesas de sinuca e torneiras de Guinness. Já o palco era em um ambiente separado, no porão - um rolê verdadeiramente underground e intimista, com capacidade para aproximadamente 130 pessoas.
As portas do porão abriram com pontualidade britânica (risos) às 19h, e às 19h10, já tínhamos nossa primeira banda no palco,
Ghozer, grupo de stoner/doom formado justamente na cidade. O show deles foi curto, meia horinha sem perder a amizade, mas foi preciso e efetivo. Em termos de som, o peso come solto, com riffs lentos, daqueles em que a velocidade é medida em minutos por batida, em vez de batidas por minuto, e faixas longas e hipnotizantes.
Mesmo com aqueles timbres que você sente cada nota no peito, não soaram excessivamente abrasivos, como muitas bandas de sludge, o que contribuiu para o clima soturno das músicas. O som deles é como estar deitado na floresta e morrer prensado por um galho de uma árvore centenária.
A proposta da Voidlurker, que tomou o palco logo depois, era outra. Como já diz o título de seu último EP, “Loathe for Life”, eles também capturam a energia pesada da realidade da cidade, mas ao invés do peso vir em forma da introspecção e contemplação, como a banda anterior, vem em forma de raiva. Não tem ninguém triste na Voidlurker, só 3 trabalhadores absolutamente putos com tudo e todos, transformando as mazelas da vida em sludge de primeira. A timbragem também trazia uma dose cavalar de distorção, daquela que arrepia até os pelos de onde o sol não brilha, para não utilizar um linguajar mais vulgar.
Entre as faixas tocadas, vale destacar
Jeffrey Doomer, que tem um riff macabro, esquartejante. Mesmo com a banda majoritariamente parada no palco, ainda dava vontade de sair na mão com o amiguinho do lado. A duração do show serviu para deixar aquele “gostinho de quero mais”, além de aquecer a galera para a
Druidess.
Lendo estas descrições fortes das bandas de abertura, pode parecer que a Druidess, que realmente tem um som mais “tranquilo”, que lembra um Lucifer mais puxado para o Sabbath, ou até um Weedevil com menos weed, ficaria deslocada na noite, mas foi justamente o oposto. Mesmo eles não trazendo a mesma agressividade dos coletivos musicais que se apresentaram anteriormente, o poder de seu som vem da atmosfera criada. Assim que soaram os primeiros acordes de Witches’ Sabbath, parecia que uma bruxa da floresta, ou melhor, um grupo de druidas, estabeleceu uma conexão entre o mundo místico e o natural e colocou todos os presentes em transe.
Se o público ainda não estava 100% solto, a banda certamente estava, especialmente
James Hill, o tecladista. Como qualquer boa banda que tange o heavy tradicional, suas músicas são recheadas de riffs harmonizados, onde o baixo, guitarra e teclado seguem a mesma melodia. Na primeira vez que isso rolou em
Witches’ Sabbath,
Shonagh
e
Daniel (baixista e guitarrista, respectivamente) fizeram aquela levantada coordenada de instrumento, a la
Iron Maiden e Judas, mas da segunda vez, James simplesmente pegou seu teclado na mão e fez o mesmo.
As surpresas não se limitaram à animação dos integrantes, pois logo para iniciar a segunda música, faixa-título de seu LP de estreia elogiado até pelo The Guardian, o brilhante “Trip Meadow”, Daniel, guitarrista, colocou um óculos escuro e foi introduzido como Trombony Iommi, e simplesmente puxou um sax e serenou o público. Dali para a frente, foi só sucesso, só pedrada, como dizem os jovens. "Knightingales" trouxe trevas e grooves na medida certa, aquela música perfeita para bater cabeça devagarinho, para não doer a lombar no dia seguinte. Na sequência imediata, com pouco tempo de respiro, tivemos "Blind Inp", que o vocalista anunciou como uma música nova, ainda não lançada. Julgando pela reação do público, que permaneceu vidrado e recebeu o novo petardo de forma absurdamente calorosa, o que quer que seja o próximo lançamento já é um acerto garantido.
Dali, ainda veio "Descended From Giants" e seu riff apropriadamente gigantesco, "The Hermit of Druid’s Temple", música que abre o disco novo com aquele clima grandioso, e, para fechar, "The Forest Witches’ Daughter", originalmente presente em seu primeiro EP, “Hermits and Mandrakes”, mas regravada (junto das outras músicas) para o disco deste ano.
Não é à toa que ela foi escolhida para fechar o show, visto que ela representa perfeitamente não só o som da
Druidess, mas tudo que o metal sempre fez de melhor - vale escutar.
Depois deles, ainda rolou um show do Morag Tong, mas por questões fora do meu controle (meu trem foi adiado), este que vos escreve não conseguiu vê-los, mas tenho certeza que foi um espetáculo impactante.
No geral, aqueles que dizem que o bom e velho metal morreu estão simplesmente errados. Sim, a realidade das bandas underground na europa é completamente diferente do Brasil, turnês assim, com duas bandas “menores” excursionando o país por uma semana, simplesmente não são possíveis em terras tupiniquins, mas mesmo assim, shows deste tipo provam que quem procura acha. Só basta querer sair de casa e prestigiar o som autoral para achar o que pode se tornar sua próxima banda favorita.
Setlist
- Witches’ Sabbath
- Trip Meadow
- Knightingales
- Blind Inp
- Descended From Giants
- The Hermit of Druid’s Temple
- The Forest Witches’ Daughter


























