Baest (Manchester, UK)
"Se em uma terça-feira numa casa menorzinha já fizeram um show memorável, imagina do que seriam capazes em um festival, ou até com o público brasileiro… fica o questionamento."
Texto por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Palmer Turner Overdrive
Não é surpresa para ninguém que os países nórdicos são vistos como alguns dos maiores e melhores expoentes dos mais diversos tipos de metal. A Noruega tem sua cena do black metal, a Suécia trouxe ao mundo sua escola de death metal melódico, e a Finlândia tem vários nomes fortes do power metal e do metal sinfônico (além do metal extremo, também). Mesmo com isso, pouco se fala - pelo menos, quando comparado aos seus vizinhos - da cena dinamarquesa. Tirando o King Diamond/Mercyful Fate e o Volbeat, que muitos nem consideram como metal, a cena de lá geralmente é mais discutida dentro do underground.
Dentro do death metal, existe uma banda que está mantendo a tocha da cena dinamarquesa acesa nestes últimos 10 anos, sendo considerada por vários como um grupo constantemente na beira de “furar a bolha”. Formado em 2015 na cidade de Aarhus, longe do caos da capital, o
Baest
vem se consolidando como um dos nomes em rápida ascensão do metal extremo, mesclando, em seu último álbum, “Colossus”, o peso do death metal com a energia do heavy metal tradicional.
Para divulgar o último LP, lançado há pouco mais de um ano, embarcaram em uma turnê europeia extensa ao lado de seus conterrâneos do
Deadnate, começando em setembro, na Alemanha, antes de passar pela Tchéquia, Hungria, Áustria, Suíça, seguido de 9 datas, já em outubro, no Reino Unido (e uma na Irlanda), antes de apresentações na Holanda, um retorno à Alemanha e uma noite na Bélgica. Como se já não fosse o bastante, em Novembro, a excursão segue pela Dinamarca. Uma coisa é certeza: o palco é onde o Baest se sente mais em casa.
O show rolou no Star and Garter, casa de shows intimista em Manchester, a poucos metros da principal estação de trem da cidade. A noite começaria com uma banda local iniciando os serviços, a Ego Death. Na ativa há pouco mais de um ano, a banda pode ser nova, mas já esbanja um profissionalismo e química invejáveis no palco. Seu som é bastante calcado no death metal, com riffs macabros e esmagadores, percussão mais rápida que o Relâmpago McQueen na última corrida daquela Copa Pistão e um baixo de tirar o ar, mas também tem a grandiosidade e cadência do metalcore moderno.
Não tem como falar deles sem parabenizar
Ollie Holgate, que não só assumiu as baquetas, mandando excepcionalmente bem nos bumbos duplos, mas também foi o responsável por grande parte dos vocais da banda - imagina o cansaço que deve dar tocar bateria e ainda fazer gutural ao mesmo tempo. O resto da banda não ficou pra trás nem por um segundo,
Georgia Fullalove e
Jacob Norbury massacraram nas guitarras, enquanto
Alex Papaioannou, baixista, segurou os graves e ainda animou o público, que em sua maioria, ainda estava chegando na casa.
Depois de uma breve troca de palco, seria a vez da Deadnate assumir a “missa”. Eles também são da Dinamarca, e surgiram até alguns anos antes dos headliners da noite, mas sua proposta é outra. O som deles se alinha bem mais com o metal progressivo, mas com alguns elementos do groove metal, perfeito para bater cabeça em tempo irregular. Era uma terça-feira, e fazia frio, então o público não estava apto a fazer rodas insanas logo de cara, mas aquele headbang cada um no seu canto, de braço cruzado, com certeza rolou.
Da mesma forma da banda que veio antes, conseguiram achar o equilíbrio perfeito entre proficiência técnica e presença de palco. Novamente, vale destacar o baixista e sua energia,
Frederik Fammé utilizou cada um dos poucos centímetros quadrados do palco do Star & Garter, além de passar o show inteiro fazendo caras e bocas para lá de apropriadas para os riffs da banda. Os vocais foram divididos entre os dois guitarristas,
Simon
e
Kenneth, que transitaram entre as linhas quebradas e vocais rasgados o show inteiro. As duas bandas de abertura tiveram sons distintos entre si, mas se teoricamente fizéssemos a “média” entre o Deadnate e Ego Death, sairia algo parecido com o Baest.
Ao som da introdução de "Light the Beacons", penúltima faixa do último álbum, tocada pelo sistema de PA, os integrantes da grande atração da noite subiram no palco um a um, e logo de cara, a energia da casa mudou. Os fãs se aproximaram do palco, mas deixaram um buraco no meio da pista - o primeiro sinal que aquele famoso vórtice humano em sentido anti-horário estava prestes a ocorrer. O repertório da noite seria baseado majoritariamente no novo álbum, e de todas as faixas, a quase-título "Colossus" foi perfeita para iniciar a brincadeira. Ao invés da rapidez que dominou boa parte do som até aquele momento, ela simplifica as coisas, apostando num riff devagar e pesado, dando aquela sensação de que você está sendo pisoteado por um elefante ao ouvir.
A vagarosidade não durou muito, pois sem tempo para respirar, "Misfortunate Son"
veio logo na sequência. Agora, vale tirar um tempo para falar da vestimenta dos músicos, os guitarristas estavam perfeitamente no padrão do death metal, camiseta preta e cara de poucos amigos, o baterista, como muitos bateristas, estava sem camiseta, mas
Simon Olsen, o vocalista, estava de camiseta branca e um boné camuflado, poderia facilmente ser confundido com um vocalista de hardcore gira-bracinho, já
Muddi, o baixista, tocava com um colete de couro vermelho sem camiseta, se enturmaria bem com a galera do
Trovão. Fiz toda esta crítica de moda para chegar no seguinte ponto: esta mistura define muito bem o som deles, especialmente de "Misfortunate Son". Ela começa com um riff completamente NWOBHM, enquanto o baterista quebra tudo e Simon grita do fundo da sua alma.
Nessa hora, o público já estava bem mais climatizado, e já começava a pular feito pipoca, algo que continuou durante a sequência de "In Loathe and Love" e "Mouth of the River", ambas também do último disco, mas com uma sonoridade ligeiramente mais “convencional” (mas ainda com a “assinatura” deles) do que o que havia sido tocado até então. Pela primeira vez, o repertório sairia do eixo apenas de
Colossal, e passaria a contemplar o resto de sua discografia, que, inclusive, estava disponível em vinil na mesa de merch. De primeira veio "Genesis", do último disco,
Necro Sapiens, que diferente da banda do mesmo nome, não é rock progressivo com um lado teatral, mas sim, death metal com solos de primeira.
Houve também uma dobradinha do EP “Justitia”, com "Gargoyles" e "Ecclesia", que por sua vez, tem 7 minutos de duração, praticamente uma ópera rock, pro padrão do death metal. Ambas foram recebidas calorosamente, injetando mais uma dose de energia num público que nem parecia estar cansado. Durante a própria "Necro Sapiens", Simon decidiu se aproximar um pouco mais do público, trazendo o que descreveu como uma “tradição natalina em outubro”. Ele desceu do palco e se posicionou no meio da pista, dizendo ser uma árvore de natal, e pediu para que os fãs formassem uma roda ao redor dele, enquanto cantava. Dito e feito, a galera deu a vida imitando formigas entrando em seu formigueiro, mostrando a força da conexão entre a banda e o público.
O set já chegava ao fim, mas não seria por isso que a banda estacionaria naquele momento. Retornaram ao último CD com a colossal "Depraved World", emendando-a com "Meathook Massacre", provavelmente uma das maiores joias de sua coroa, e destaque do disco anterior, recebida novamente com um pequeno alvoroço. Para fechar com chave de ouro, apostaram na cultura típica do povo britânico, avisando que uma tempestade estava por perto, e executando "Stormbringer"
para terminar aquela terça-feira do melhor jeito possível. Para os curiosos, sim, na saída do show estava garoando.
Ao todo, o Baest mostrou exatamente por que é uma banda com potencial praticamente inesgotável: sua energia e disposição para fazer algo que foge do óbvio são completamente fora da curva! Ficaram devendo músicas dos trabalhos pré-pandêmicos, para os fãs de longa data, mas também não os culpo. Mesmo sendo discos de qualidade, ficou bem claro que o foco da banda agora é no presente e no futuro, estamos plenamente na era de Colossus. Se em uma terça-feira numa casa menorzinha já fizeram um show memorável, imagina do que seriam capazes em um festival, ou até com o público brasileiro… fica o questionamento.
Setlist Baest:
- Colossus
- Misfortunate Son
- In Loathe and Love
- Mouth of the River
- Genesis
- Gargoyles
- Ecclesia
- Necro Sapiens
- Depraved World
- Meathook Massacre
- Stormbringer






























