Sonata Arctica (SP)

"Como é satisfatório estar em um ambiente em que você simplesmente vê tanta gente cantando a plenos pulmões, se emocionando e apenas curtindo desde as músicas mais rápidas até as baladas, que foram muitas — e ainda bem!"

Texto por: Rato de Show - @ratodeshow

Fotos por: Lucas Camargo - @ghost3d.raw


Agradecimentos: Honor Sounds e Till Dawn They Count


Este tem sido um ano de comemorações para os fãs de metal, onde, dentro dos diversos motivos para fazer o Come to Brazil, as datas comemorativas são uma das que merecem destaque. Do Iron Maiden, com a turnê Run For Your Lives, que chega agora em outubro em comemoração aos 50 anos da banda, ao Helloween, que passou em setembro com a turnê Giants and Monsters, também em comemoração aos 40 anos, ainda tivemos inúmeras bandas celebrando aniversários de álbuns, entre elas Slayer, Dream Theater, Dark Tranquillity e Angra. Este último colocando os power metaleiros entre a cruz e a espada pela difícil escolha entre acompanhar os shows comemorativos de Holy Land e Rebirth ou o assoprar de velas de outro aniversariante e queridinho de longa data dos brasileiros: os finlandeses do Sonata Arctica.


Chegando ao Brasil para duas datas no estado de São Paulo, o Sonata finalizou a turnê comemorativa de seus 30 anos de estrada no último dia 3 de outubro, em São Paulo, na Audio. Um local com o qual, como os próprios integrantes disseram, sabiam que poderiam contar para encontrar o calor dos fãs e finalizar a grande festa que iniciaram ao longo de 2026.


Antes de chegarmos lá, é preciso falar da abertura da noite, feita pela experiente banda brasileira Noturnall, que se provou uma escolha mais do que assertiva. E não digo isso pela capacidade performática ou por um setlist na medida, mas pelo carisma semelhante entre Tony Kakko e Thiago Bianchi. Ambos vocalistas experientes, igualmente engraçados e capazes de manejar bem o seu público.


A banda, que conta também com Henrique Pucci (bateria), Saulo Xakol (baixo) e Guilherme Torres (guitarra), chegou com “Try Harder”, dividindo o público entre aqueles que não conheciam a banda e se impressionavam com ela e aqueles que sabiam o que esperar e já se colocavam a bater cabeça e cantar junto ao vocalista.

noturnall em SP

Mostrando também por que teve uma extensa agenda de shows que percorreu o Brasil e a Ásia, além de festivais como Bangers Open Air e Rock in Rio, a competência e a qualidade sonora eram inegáveis. Entre as linhas de baixo marcantes, uma guitarra afiada, virtuosa e rápida, os bumbos duplos e as viradas certeiras da bateria e um vocal versátil e interpretativo, passaram por músicas como “Reset the Game”, “Shallow Grave”, “Scream! For!! Me!!!” e “Nocturnal Human Side”.


Fosse Thiago arrancando risadas ao contar como a banda era “muito amiga” de figuras como Kiske e Portnoy, agitando ao pular da grade e sendo recebido pelo público, que o jogava para cima e para baixo, brincando com a pedaleira da guitarra quase como um DJ ou mandando agudos e até um gutural que beirava um pig squeal, os louros da apresentação não ficavam somente com o vocalista. Cada um de seus membros teve seu momento, em especial Torres, que mostrava uma técnica tão intensa que algumas pessoas sussurravam: “É, esse aí é novo, mas tem muito futuro”.


Correndo o risco de chover no molhado, o setlist mostrou a versatilidade da banda, que, ainda que seja posta na caixinha do prog power, tem em sua discografia músicas que vão além, da intensidade e do peso a uma boa balada e músicas com um toque mais moderno. Um show que, felizmente, começou com a casa relativamente vazia, mas que, antes do fim, já encontrava a Audio praticamente preenchida de cabo a rabo, com todos os presentes demonstrando completo apoio e entrega aos brasileiros.


Setlist:

  1. Try Harder
  2. No Turn at All
  3. Reset the Game
  4. Sugar Pill
  5. Shadows
  6. Shallow Grave
  7. Scream! For!! Me!!!
  8. Nocturnal Human Side
Noturnall em SP

O clima na Audio começou a esfriar (apenas metaforicamente, infelizmente) conforme as luzes passavam a ficar mais azuis, guiadas pelos LEDs, os backdrops e um brasão inflável gigante da banda mostravam a cenografia simples, porém bonita, do Sonata. Tudo isso junto à crescente ansiedade e à lotação do espaço, que ansiava pelo show.


Entravam então Tommy Portimo (bateria) e Elias Viljanen (guitarra), logo seguidos por Tony Kakko, Pasi Kauppinen (baixo) e Henrik Klingenberg (teclados). Aos gritos do público, iniciavam com a banger “I Have a Right”, do álbum Stones Grow Her Name (2012). Mostraram que não estavam para brincadeira ao emplacar “Black Sheep” e “Paid in Full” na sequência, sendo um daqueles momentos em que você constata que, durante esses 30 anos e onze álbuns de estúdio, uma noite em que só as melhores estavam prometidas seria daquelas de ir embora já sem ouvir a própria voz.


Falando em não ouvir a própria voz, em “Last Drop Falls” e em diversos momentos do show, como em “Tallulah”, “Letter to Dana” e “Shy”, Tony passava a maior parte do tempo sentado. O movimento não é tão atípico nos dias de hoje, mas ali ficou nítido que o vocalista provavelmente ainda estava sentindo os efeitos da doença que o acometeu durante a turnê e que fizera a banda cancelar, inclusive, o show no Uruguai.

Sonata Arctica em SP

Tossindo em vários momentos, o vocalista chegou a comentar sobre o ocorrido, lamentando e reconhecendo que não estava 100%, mas fazendo questão de dar o seu máximo para fechar a turnê com o mesmo sentimento de celebração com que a iniciou. E como o público respondia de volta! Até porque, mesmo enfraquecido e se segurando aqui e ali, a experiência do músico falava mais alto, dando um show de interpretação e, em alguns momentos, até de intensidade, deixando o gogó aparecer e disputando com a plateia para ver quem cantava mais alto.



E, nossa, como é satisfatório estar em um ambiente em que você simplesmente vê tanta gente cantando a plenos pulmões, se emocionando e apenas curtindo desde as músicas mais rápidas até as baladas, que foram muitas — e ainda bem! Afinal, nosso mestre da sofrência, que mostra que o metal europeu sabe interpretar a dor sertaneja, não seria o mesmo sem essas músicas que, após duas cervejas, te fazem ligar para a ex.


Mas, assim como Bianchi, o carisma natural que também exalava de Kakko não ofuscava a qualidade sonora dos demais músicos. Fosse nas batidas e no sorriso de Tommy, que ostentava uma camiseta do Brasil, fosse em Pasi, que sempre estava com um sorriso no rosto e buscando contato visual com a plateia, ou até mesmo nos mais retraídos e introvertidos, Elias e Henrik, que, se não traziam tanta interação, compensavam no quanto se dedicavam aos seus instrumentos. Em especial, no dueto sempre de arrepiar entre guitarra e “keytar” em “Full Moon”, música que talvez tenha atingido um dos pontos altos da noite, enquanto Kakko olhava admirado, segurando o microfone pelo pedestal para ouvir o público bradar junto: “Run away, run away, run away!”.

Sonata Arctica em SP

Voltaram para o encore com “The Last Amazing Grays”, de The Days of Grays (2009), que agitou a galera, mas não antes de Tony fazer o seu já rotineiro discurso, que, sinceramente, nunca me canso de ouvir. A importância genuína que se sente ao ouvir o quanto quem está ali, consumindo, incentivando e curtindo, é o que mantém o metal vivo, é um dos momentos em que você consegue sentir de forma mais palpável como faz parte da comunidade do metal. Especialmente para nós, que vemos isso diariamente, não só em shows grandes e de artistas internacionais, mas também no quanto aquelas palavras são a mais pura verdade, tendo como combustível esse amor pela música.


Fecharam então com a explosiva “Don’t Say a Word”, de Reckoning Night (2004), mas, claro, sem ir embora sem preparar todo mundo, aquecendo as vozes e os gritos para berrar junto a Tony Kakko, dando-lhe permissão para tomar vodka, já que aparentemente é do que ele gosta. Mas quem sabe alguém não o tenha convencido a pelo menos tomar uma cachaça por aqui?

Sonata Arctica em SP

No fim, o show do Sonata Arctica é sempre uma daquelas experiências de catarse coletiva, sempre divertida e no ponto. Sendo uma banda tão querida e com músicas tão conhecidas ao longo das décadas, acaba sendo um desafio apresentar um set em que algumas músicas não vão estar, como a própria “FullMoon” ou “Tallulah”. Mas é fato que isso deixa pouco espaço para a banda trazer também outras grandes músicas de seu acervo, como “My Selene”, “Larger than Life” ou “The Misery”. Tivemos, sim, algumas joias por vezes esquecidas da coroa, como foi ouvir ao vivo “The 8th Commandment”, mas creio que, no fim, não dê para ter tudo — e está tudo bem também.


Quem sabe em uma próxima oportunidade? Inclusive, a banda reforçou que pode “demorar” para voltar, deixando escapar que no próximo ano devem entrar em estúdio para dar vida ao próximo álbum. Reforçaram ainda que, com um novo álbum feito, se tem uma coisa que o quinteto gosta de fazer é cair na estrada.



Setlist:

  1. I Have a Right
  2. Black Sheep
  3. Paid in Full
  4. Last Drop Falls
  5. Tallulah
  6. 8th Commandment
  7. Closer to an Animal
  8. Letter to Dana
  9. White Pearl, Black Oceans...
  10. Shy
  11. FullMoon
  12. The Last Amazing Grays
  13. Don't Say a Word
  14. Vodka
Sonata Arctica em SP

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