Anime Friends - Sexta
"Outro grande acerto da curadoria do Anime Friends, essa diferença de gêneros e expressões ainda em uma sequência trouxe um frescor, fazendo com que a noção de tempo praticamente se perdesse dentro do espaço."
Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)
Fotos por: Maru Division
Agradecimentos: Maru Division e Anime Friends
Chegando em seu segundo dia de evento e, dessa vez, mais familiarizado com o espaço do Anime Friends, o início um pouco mais tardio das apresentações musicais permitiu um giro pelo evento que deu uma maior dimensão sobre o quão intenso é o gosto do brasileiro pela cultura nipônica.
Mas, entre os cosplays, os stands e as ativações, curiosamente era sempre possível aqui e ali identificar também alguém com alguma camiseta de banda, mostrando que o apreciador da música pesada habita todo o lugar.
Me posicionando para a área da Arena AF mais uma vez, próximo às 16h, com o público ainda mais enxuto, o display, que ainda não cansava de me surpreender, corria de um lado para o outro com os letreiros apontando a entrada do Senpai Old School, banda inaugural do dia, que esquentou o coração do público ao mesclar conhecidas e mais recentes aberturas dos mundos dos animes, passando por Dragon Ball Super, Kimetsu no Yaiba, Naruto, dentre outros.
Apesar do nome, de Old School a banda “não tem nada”, exibindo um repertório atual, moderno e animado entre um septeto de músicos bem competentes e afiados. O resultado era visível por entre o público que se colocava a cantar a plenos pulmões, onde era especialmente curioso ver quando os músicos começavam a cantar uma música de um determinado anime e você avistava uma pessoa de cosplay daquele anime em total euforia, como foi o caso em “Fly High”, do
Haikyuu!
Daquele ponto em diante, o sentimento de estar “em casa” começaria a sobrevoar os meus sentidos, pois a sexta-feira estava marcada para ser o dia da música mais pesada do evento. Digo isso porque logo na sequência subia ao palco o Galneryus, uma das joias japonesas do power prog que, há mais de 25 anos, criou uma carreira consistente que, ainda que sendo mais reconhecida pelas contribuições às músicas de anime, sua discografia, complexidade e trabalhos se estendem muito além.
Com Yuhki nos teclados, Taka no baixo, Lea na bateria e a inconfundível voz de Masatoshi Osho nos vocais, a banda fica completa com seu único membro-fundador, o marcante guitarrista Syu. A pose de rockstar de todos denunciava a experiência e a longa estrada, daqueles que você observa já na postura a qualidade do som.
Bumbo duplo estralando, agudos belamente sustentados, orquestração impecável, mas com a guitarra roubando a cena em uma performance de Syu, especialmente nos solos que não tinha como não lembrar de Malmsteen e seu estilo neo-clássico, mas que, longe de engolir os demais, se complementava e gerava uma cozinha de um nível invejável.
Trazendo músicas de seu repertório como “The Reason We Fight”, “Lost in the Darkness” e “Kizuna”, o público, já bem mais cheio, se dividia nitidamente entre os fãs de anime estupefatos com a qualidade musical da banda, mas sem necessariamente reconhecer o som da banda, e aqueles da velha-guarda, fosse do metal ou da intersecção entre os animes e metal, que vibrava pela entrega que o grupo deixava no palco.
Ainda que Masatoshi estivesse visivelmente doente, sua voz esbanjava muita força no auge de seus 59 anos. O músico, que tentava ora e outra falar algumas palavras em inglês, mas manteve boa parte em japonês, arriscava também um português aqui e acolá, com “Vamos Brasil!” e, como quase todas as outras bandas — curiosamente —, sempre fazendo uma referência ao churrasco. O músico ainda pontuou sobre não estarem em um show propriamente de metal e que, portanto, deveriam abraçar o local e cantar algo pelo que fossem conhecidos que tinha uma conexão com o mundo dos animes.
Imediatamente, os celulares subiam e a euforia crescia à medida que a maioria sabia o que significava. O momento que todos esperavam. Mas antes que o encerramento de
Hunter x Hunter, “Hunting for Your Dream”, pudesse ter início, todos foram surpreendidos com a chegada de
Kuroda, host do Anime Friends que, magistralmente, começou a criar uma tensão no ar, antes de anunciar a entrada triunfal de
Cido Tavares, dublador e a voz responsável pelas narrações de Hunter x Hunter.
Sim, aconteceu. A Maru Division fez o impensável e recriou um dos maiores memes e um dos momentos mais icônicos da dublagem dos animes contemporâneos, ao trazer seu narrador para falar a frase “Kurapika está caindo em um vazio indescritível”. Uma frase que pode parecer besta, mas que, dentro da cultura da internet, tem um peso incomensurável, que colocou todo o Anime Friends abaixo e que serviu como prelúdio para a épica, intensa e apoteótica “Hunting For Your Dreams”.
Surreal vivenciar tal momento. E mais surreal é saber que, apesar de ter sido uma das coisas mais incríveis, estava longe de ser o ponto alto do show do Galneryus. Contando ainda com o debut live de “The Light of Hope” e a gigante “Angel of Salvation”, a estreia do Galneryus em território nacional não poderia ter sido mais perfeita. Um verdadeiro show digno de grandes festivais como Wacken Open Air e o nosso querido Bangers Open Air, feliz e inteligente a curadoria do festival que fez questão de honrar um dos legados do power metal ao serem os primeiros a trazer tal banda para cá.
Após essa aula de metal, seria o momento de termos outra grande e positiva surpresa através do MUCC. Outro conjunto estreante em território nacional, mas que acumula quase três décadas dedicadas a uma das expressões mais próprias da sonoridade japonesa, o visual kei.
Um blend entre uma sonoridade permissiva na fluidez de gêneros e igualmente fluida na expressão visual, o estilo é marcado por uma estética visual que se é tão importante quanto o som e letra. Um nome consistente dentro dessa cena, o MUCC trouxe sua história para os palcos da Arena AF.
A cada música era nítido o tempo acumulado de estrada e as experimentações que a banda teve ao longo do tempo, de um puro e simples rock a elementos do pop, industrial e até metalcore. O show foi completamente imersivo e performático, guiado pela presença fantasmagórica de
Tatsuro, que não tinha como não se pegar pensando em
Marilyn
Manson
talvez como uma referência.
Dramático, ora agressivo, ora misterioso, a fluidez da sua voz para músicas mais pesadas e músicas mais expressivas mesclava bem com a fluidez de seu próprio visual, em contraste também a Miya, guitarrista e também cofundador, que tinha um ar meio punk rocker, agressivo e afiado, e Yukke, que, apesar de ser o mais reservado e contido, fazia um ótimo trabalho de baixo do começo ao fim. A banda trazia também Shomura Satoyasu nas baquetas, e sem seu tecladista de apoio, Tooru Yoshida.
Portando um papel com alguns dizeres em português, não cansava de me impressionar com o esforço desses artistas de uma terra tão distante de, mesmo que minimamente, tentar se expressar em nossa língua, mesmo se fosse só para agradecer, dizer sobre nossa comida ou algo do gênero.
As músicas de animes certamente foram aquelas que geraram mais ânimo para o público geral, como “Nirvana”, de Inu x Boku SS, “Classic”, de Seven Deadly Sins, e, é claro, “Mother”, encerramento de Naruto Shippuden. Mas, assim como o próprio Galneryus, estava em seu próprio acervo as músicas que permitiam derramar mais de sua própria personalidade e, consequentemente, as mais interessantes.
Músicas como “Suiren”, “Saishuu Ressha”, “Ai no Uta” e “Iris” trouxeram justamente essa versatilidade da banda, que, mesmo com todos esses artifícios, era possível observar e ouvir que sua qualidade sonora era absurda, com destaque para os solos inflamados de Miya e o groove rítmico empregado por Yukke e Shomura. Tatsuro, ainda entre as pausas, brincou, puxando a galera a cantar junto naquele estilo bem Freddy Mercury. Uma pena não termos tido a oportunidade de ouvir as linhas de teclado ao vivo, mas, mesmo sendo uma parte que incorpora curiosamente bem ao som, ainda que moderno, mesmo sendo apenas pré-gravado, não estragou a performance como um todo.
Outro grande acerto da curadoria do Anime Friends, essa diferença de gêneros e expressões ainda em uma sequência trouxe um frescor, fazendo com que a noção de tempo praticamente se perdesse dentro do espaço.
Fechando o segundo dia do AF Festival e ainda dentro do campo das estreias, o headliner da noite era altamente esperado com grande animação, devido à grande projeção que este grupo vem recebendo nos últimos anos, definitivamente sendo um a sair da bolha dos animes.
Falo do quarteto feminino Hanabie., banda mais recente, tendo completado sua primeira década e sendo uma verdadeira febre pela dualidade entre seu visual fofo e meigo e o estilo pesado de seu som, auto-intitulado de harajuku-core.
Peso, melodia, groove e breakdowns são alguns dos principais fatores que, quando colocados nas mãos de Yukina (vocal), Matsuri (guitarra), Chika (bateria) e Hettsu (baixo), produziam aquele som pesado que simplesmente tornava impossível não pendular com o corpo para trás e para frente, batendo cabeça.
Tendo já passado e dominado os principais palcos internacionais do mundo, a chegada do Hanabie. no Brasil também ocorreu no Anime Friends, com os dois pés na porta já com “O•TA•KU Lovely Densetsu”. Passando ainda por “NEET GAME” e “Today’s Good Day & So Epic”, o público já estava completamente ensandecido, batendo cabeça junto às meninas que, ainda que mantendo o aspecto “fofo”, mostravam também todo o peso visceral de seu som.
Digno de headliner, o controle vocal de Yukina era um dos elementos mais impressionantes, mudando rapidamente de sua voz limpa e o rap para o gutural e berros, no passo que a dupla entre Hettsu e Chika era simplesmente absurda. Blast beat a todo momento e aquela linha grossa de baixo que pedia por uma roda — que aconteceu de forma tímida, mas aconteceu, contando com um
Pikachu
para puxar o liquidificador humano —, com Matsuri trazendo aquela guitarra mais cadenciada com linhas curtas, diretas e intensas.
Indo de um lado para o outro, pulando de um lado para o outro também, o show da Hanabie. era extremamente visual e colorido. Com linguagem predominantemente em japonês, salvo com uma frase ou outra em inglês, em “ICONIC” o público parecia se tornar um com a banda através do refrão, fazendo o espaço do complexo Anhembi parecer pequeno. As batidas eletrônicas, com direito até ao telefone de peça de cenografia, foram simplesmente a cereja no topo do bolo.
No departamento do carisma, então, nem se fala. Certamente mais acostumadas à interação com a plateia, quase que em um ar meio de idols, o que dizer de uma baixista que acena e abre uma lata de Therezópolis no meio do palco? Acho que isso, por si só, já diz muito sobre a banda como um todo. Absolute cinema, como diria o meme.
Trazendo músicas ainda como “Ware Amatou”, “Spicy Queen” e “Oishii Suvivor”, o ponto alto da noite foi justamente na hora de dizer tchau, quando a banda tirou o último centésimo de energia do público ao cantar seu maior hit, “Osaki ni Shitsurei Shimasu”. No fim do dia, o Hanabie. foi exatamente como a tradução do nome da banda, um fogo de artifício colorido, explosivo e animador.
Um completo acerto, difícil de se superar em termos do line-up do dia, a sexta-feira se provou ser um dia e tanto entre músicos mais consolidados e contemporâneos que vêm exportando a cultura japonesa com maestria ao redor do globo. Saber ainda que haveria dois dias à nossa frente e muitas outras bandas para se impressionar era empolgante, reforçando outra vez esta ideia da música como um ponto focal da convenção como um todo.
Acompanhe a cobertura dos demais dias de evento logo abaixo:












