Anime Friends - Domingo
"Um encerramento digno da maior feira de animes da América Latina, o Anime Friends ainda trouxe para o palco os spoilers de sua edição já confirmada de 2027, que fica aqui o aviso de que, mantendo o nível de curadoria musical, será definitivamente um próximo grande e necessário encontro".
Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)
Fotos por: Maru Division
Agradecimentos: Maru Division e Anime Friends
E com o clima de Copa, em pleno dia de jogo do Brasil, chegava também o último dia do Anime Friends, já trazendo aquele sentimento de pré-luto pelo fim do que foi mais da metade da semana de festividades. O clima se mantinha ensolarado e propício para o evento, que agora se dividia entre cosplays e pessoas trajadas de verde e amarelo e a intersecção entre eles, com pessoas de cosplay com a camiseta do Brasil.
Mas ainda seria um longo dia pela frente e, no que nos dizia respeito, um dia iniciado cedo, já às 13h com o Super Friends Spirits, uma espécie de super jam que mesclava artistas brasileiros com japoneses, interpretando e reinterpretando as mais variadas clássicas entre os animes e tokusatsus.
Um verdadeiro supergrupo que contou com a banda YUYU20, comandada por Hans Zeh e Lucas Araujo, como a principal responsável por uma cozinha fantástica que continha de guitarras a teclados e até instrumentos de sopro, que recriava ao vivo os elementos de ska de algumas aberturas, principalmente dos anos 80, em plena maestria.
Do lado brasileiro da coisa, tivemos o próprio Luigi Carneiro nos vocais de aberturas nacionais e mistas, com destaque para seus principais hinos em Solbrain e Yu Yu Hakusho. O ponto alto da apresentação como um todo, talvez, se deu ainda com a entrada de Matsuko Mawatari, eterna voz original da abertura de Yu Yu, "Hohoemi no Bakudan", que fez um dueto misto entre as línguas com Luigi que foi simplesmente mágico. A cantora também trouxe outras de seu acervo como “Sayonara Bye Bye” e “Homework ga Owaranai”.
Outra participação mágica do lado feminino e, dessa vez, nacional, se deu também com a presença de
Larissa Tassi
cantando sua interpretação de
Guerreiras Mágicas de Rayearth e, é claro, a geracional abertura de
Cavaleiros do Zodíaco, que colocou todos os 30+ a pularem alvoroçados revisitando sua juventude - eu incluso.
Era simplesmente admirável ver o mesmo nível de louvor e apreciação que os artistas internacionais recebiam sendo direcionados também aos nossos grandes músicos brasileiros, que ficavam em pé de plena igualdade, reforçando a característica de um grupo coeso e especial. E falando de especial, impossível não comentar a participação de Yoshiki Fukuyama, guitarrista e vocalista de voz atemporal que serviu para registro de grandes tokusatsus dos anos 80 como Macross7 e que retornou ao palco do AF Festival para, junto ao público, cantar músicas como "Planet Dance" e "Totsugeki Love Heart", reafirmando seu amor pelo Brasil e proclamando, sempre que possível, sua frase favorita: “Tá foda!”.
Cantor que marcou também a geração dos 80, mas contribuindo em produções mais novas, Yoffy foi outra personalidade extremamente carismática a participar do SFS desta edição com sua voz potente, rasgada e energética. Para além de suas contribuições que passaram por Transformers, Dekarangers, Yu-Gi-Oh! GX e Bakugan, talvez um dos momentos mais lindos da apresentação como um todo veio em uma interpretação conjunta com quase todos os participantes de Cavaleiros do Zodíaco em homenagem a Nobuo Yamada, amigo pessoal de muitos ali e que nos deixou no último ano. Ver a emoção correndo solta pelo Arena AF tanto no público, quanto nos músicos foi de uma vulnerabilidade intensa.
Dentre os músicos, um em particular que contou bastante histórias de bastidores e serviu como uma ponte entre os próprios artistas, foi o brasileiro
Ricardo Cruz, que complementou bem o grupo ao trazer experiência com jovialidade, potência vocal e muita pose ao interpretar diversas músicas, inclusive suas interpretações como em
One-Punch Man.
Fechando ainda as participações que tivemos ao longo das quase três horas - que passaram voando - de apresentações, tivemos New Jack Takuro, com muita pompa, estilo e seu chapéu fedora, cantando seus clássicos do Dairangers com sua voz marcante e única, dando um show de vitalidade e sendo uma figura carismática. E outra cena igualmente marcante, fora a participação de Mika Chiba, cantora e atriz que participou de Cybercops e não deixou de estar presente na reinterpretação deste clássico dos super sentais, que contou ainda com a presença dos próprios Cybercops originais!
O clima e a sensação era a de uma verdadeira festa e celebração da cultura nipônica e das raízes de amizade construídas com o Brasil, de forma orgânica e descontraída, sem que esta parecesse improvisada. Ainda que sabendo que a noite reservaria outro grande headliner, na minha opinião, um evento como este show por si só, já teria sido, a grande apresentação do dia.
Após esse grande show intergeracional, o público presente rapidamente mudou brutalmente, afinal, era a oportunidade das fãs que não tiveram a oportunidade de presenciar o show do Wolf Howl Harmony from Exile Tribe, que faria um segundo show no Anime Friends.
Igualmente carismáticos, energéticos e com direito a vários passinhos de dança, o projeto que mescla entre o pop e o rap fez uma apresentação semelhante à da quinta-feira, trabalhando mais uma vez milimetricamente pelo palco. Semelhante também foi o alvoroço, gritos e interação dos Fandangos - nome do fã-clube - com os artistas que pareciam se sentir mais confortáveis até, arriscando um pouquinho mais de português na mediação com Ghee e já prontos para retornar ao Brasil em outro momento.
Para ler a resenha do primeiro show do Wolf Howl Harmony, clique aqui.
Outra banda que realizou mais um grande show, após uma primeira apresentação de sucesso, foi o power trio do Burnout Syndromes, que se colocaram uma vez mais sob os holofotes na Arena AF.
Mantendo a mesma intensidade de seu show ao trazerem suas pedradas musicais da abertura dos animes como "Blizzard", "Good Morning World!" e "Fly High!!", estes foram o suficiente para ter a certeza de que o público estaria rendido para o show, mesmo em pleno jogo do Brasil rolando do lado de fora. Aqui fica minha única crítica mais centrada ao evento como um todo, pois o espaço, ainda que ligeiramente cheio, não teve toda a lotação alcançada unicamente devido ao jogo do Brasil contra a Noruega que ocorria do lado de fora em um espaço ainda improvisado.
Parece-me um tanto quanto estranho a produção não considerar passar o jogo pelos telões laterais do palco, prática essa extremamente comum em shows dos pequenos aos grandes, como foi o caso do Knotfest 2022, e que poderia inclusive ter atraído um público maior para celebrar e curtir o show enquanto via a seleção passando aperto com o time de Haaland.
Dito isso, a banda entregou um show diversificado, trazendo outras músicas para seu setlist como "The WORLD is Mine" e "Origami" no fechamento, mas o grande destaque talvez vá para "FORÇA", música tocada com a participação de Nill, rapper e mangaká, criador da obra nacional Maestro, um projeto que serve como uma história baseada em discografia e justamente nessa interconexão entre a música e a arte.
Ver a admiração mútua dos artistas, bem como esse nível de consideração do próprio Burnout Syndromes, reflete no porquê de eles serem um trio que, sempre que pintam por aqui, são certeza de sucesso garantido.
Com o fim da apresentação, assim como o fim do sonho do hexa, pouco a pouco o espaço da Arena AF começava a se empanturrar, com a presença inclusive de muitos, mas muitos, cosplays de Naruto. Isso porque um dos principais headliners desta edição, o Asian Kung-Fu Generation, era certamente uma das bandas mais aguardadas da semana, vide as contribuições de anisongs ao longo dos anos que, junto ao FLOW, o colocam em um desses patamares acima da média.
A entrada triunfal de Kiyoshi Ijichi (bateria), Kensuke Kita (guitarra), Takahiro Yamada (baixo) e Masafumi Gotoh (vocal/guitarra) era ovacionada aos gritos, à medida que emplacaram "Senseless", seguida da primeira pedrada da noite, "After Dark", abertura de Bleach. Seguido ainda de "Soredewa, Mata Ashita", tema de um dos filmes de Naruto, o público parecia comemorar mais do que seria comemorado em caso da vitória da seleção brasileira.
No entanto, com um repertório mais extenso do que o próprio FLOW, a possibilidade de também tocarem suas músicas próprias parecia com o tempo dar uma amornada no público, talvez não tão familiarizado com o acervo da banda, que destoa ligeiramente da empolgação gerada pelos anisongs.
Ritmos etéreos, introspectivos e de cadência mais lenta eram alguns dos principais elementos que passaram por músicas como "Kimi no Machi Made", "Life is Beautiful" e "Solanin", dentre outras que compuseram essa primeira metade do show. Somado ainda a uma falta de interação com o público de uma forma mais direta, com exceção dos fãs de carteirinha, parecia que a banda ia perdendo a atenção de parte do público ao longo de sua apresentação. E não que a música fosse ruim, ou que houvesse algum problema, muito pelo contrário!
A guinada pareceu voltar em "Empathy", tema do filme de Boku no Hero, mas se viu dando outra desacelerada, até a chegada de "Rewrite", outro clássico do antigo Full Metal Alchemist, seguido de "Blood Circulator", de Naruto Shippuden, e "Re:Re:", de Erased. E convenhamos, não era para menos. A discrepância do agito e empolgação gerado entre a parcela das anisongs e das músicas autorais era gritante, tanto pelas reações, quanto pelo próprio calor que emanava das músicas, mesmo em um setting mais escuro e com uma iluminação que convidava mais para a introspecção.
Mas certamente o momento verdadeiro magistral da noite foi quando "Haruka Kanata" entrou em cena, a talvez primeira música das aberturas de animes que emplacou a geração 2000 e serviu como um hino que transportou o Oriente via internet para o Ocidente. Simplesmente um momento surreal de se vivenciar, a passagem do Asian Kung-Fu Generation, por ter torcido alguns narizes em parte de sua apresentação, mas fato é que, quando era sobre tocar suas músicas de prateleira, estas foram executadas com primazia e postas para conectar os fãs com diversos momentos diferentes das próprias vidas.
Um encerramento digno da maior feira de animes da América Latina, o Anime Friends ainda trouxe para o palco os spoilers de sua edição já confirmada de 2027, que fica aqui o aviso de que, mantendo o nível de curadoria musical, será definitivamente um próximo grande e necessário encontro para os amantes da interseção entre a cultura oriental e a música.
Acompanhe a cobertura dos demais dias de evento logo abaixo:














