Anime Friends - Sábado
"Um momento tão especial propiciado para os presentes, que ouso dizer que colocariam um grande obstáculo na frente do headliner do dia seguinte".
Texto por: Rato de Show (@ratodeshow)
Fotos por: Maru Division
Agradecimentos: Maru Division e Anime Friends
Um sábado ensolarado e cheio de expectativas marcou o terceiro dia do AF Festival no Distrito Anhembi. Com uma programação que se iniciava desde cedo, o final de semana na capital paulista era comandado por pessoas trajando as vestes de seus personagens orientais favoritos, já desde as estações de metrô em direção às volumosas filas que se faziam em antecipação para o dia.
Para nós, isso se traduziu em mais um dia acompanhando a sonoridade do Oriente, que se iniciou por volta das 14h30 neste dia com a artista Mia, outra estreante no solo brasileiro, rosto à frente do projeto Sangatsu no Phantasia. Também de carreira “mais recente”, a cantora era outra performer cuja sonoridade estava mais conectada a aberturas e encerramentos de animes.
Isso já era visível logo em sua entrada com “101”, abertura de The Honor Student at Magic High School. Cantando na sequência músicas como “Square Fate”, “Snow Noir” e “Pastel Rain”, a identidade musical da artista, diferentemente de seus colegas que pisaram no AF Arena até então, era talvez uma das mais consistentes entre as aberturas e encerramentos e sua discografia.
Com aparência e gestos delicados, daqueles quase estereotipados, Mia começou a ganhar pouco a pouco a plateia por ser aquela figura mais introvertida, com expressões de surpresa e alegria, seguindo os moldes dos outros artistas ao tentar pronunciar algo em português aqui e acolá, e sempre agradecendo, reverenciando e aparentemente curtindo o momento.
Daquele ponto em diante, o sentimento de estar “em casa” começaria a sobrevoar os meus sentidos, pois a sexta-feira estava marcada para ser o dia da música mais pesada do evento. Digo isso porque logo na sequência subia ao palco o Galneryus, uma das joias japonesas do power prog que, há mais de 25 anos, criou uma carreira consistente que, ainda que sendo mais reconhecida pelas contribuições às músicas de anime, sua discografia, complexidade e trabalhos se estendem muito além.
Com Yuhki nos teclados, Taka no baixo, Lea na bateria e a inconfundível voz de Masatoshi Osho nos vocais, a banda fica completa com seu único membro-fundador, o marcante guitarrista Syu. A pose de rockstar de todos denunciava a experiência e a longa estrada, daqueles que você observa já na postura a qualidade do som.
Bumbo duplo estralando, agudos belamente sustentados, orquestração impecável, mas com a guitarra roubando a cena em uma performance de Syu, especialmente nos solos que não tinha como não lembrar de Malmsteen e seu estilo neo-clássico, mas que, longe de engolir os demais, se complementava e gerava uma cozinha de um nível invejável.
Trazendo músicas de seu repertório como “The Reason We Fight”, “Lost in the Darkness” e “Kizuna”, o público, já bem mais cheio, se dividia nitidamente entre os fãs de anime estupefatos com a qualidade musical da banda, mas sem necessariamente reconhecer o som da banda, e aqueles da velha-guarda, fosse do metal ou da intersecção entre os animes e metal, que vibrava pela entrega que o grupo deixava no palco.
Porém, diria que isto não fora o suficiente para propiciar uma real imersão musical, pois a artista não trazia consigo nenhuma banda. Somente com a voz e andando acanhada de um lado de outro, o espaço vazio do palco praticamente engoliu Mia, quebrando um pouco esse storytelling.
Fato este comparável até mesmo com os meninos do Wolf Howl Harmony, que, apesar de também não terem uma banda, compensaram a ausência usufruindo cada centímetro cúbico do palco e chamando a atenção de forma mais ativa para si. Complementarmente, era notável que a estética visual, pastel e de cores mais para o azul, roxo e rosa eram os elementos primários de Mia, tanto pela sua roupa, quanto pelo telão que sempre trazia imagens com desenhos de seu alter-ego produzidos tanto por si, quanto por outros artistas japoneses, que se envolvia nas melodias e a intensidade de sentimentos expressos, mesmo que não fossem totalmente compreendidos.
Um elemento interessante e que diria ter sido o único ponto focal que complementara um pouco o “vazio”, sentido, mas que em última instância diria não ter sido o suficiente para sustentar o show como um todo. Passando ainda por músicas como “Sangatsu Ga Zutto Tsuzukebaii” e “Hajimarino Sokudo”, a artista recebeu diversos aplausos e gritos da plateia, juntamente de “Golden Ray”, abertura de
Atelier Ryza: Ever Darkness & the Secret Hideout, que fechou sua apresentação.
Sem muito tempo para descanso, era a vez da primeira artista que já havia pisado sobre os palcos do AF Festival de realizar seu retorno, trazendo um clima mais quente, energético e de tirar os pés do chão. Isso porque entrava Nano, artista que traz uma sonoridade entre o rock e o pop-punk cheia de atitude e talvez a artista com a faceta mais ocidentalizada do line-up.
Japonesa-americana, a artista tinha uma desenvoltura performática, intencional e bem assertiva, daquelas que sabe o que quer e o momento em que quer. Junto com Koki na bateria, Misaki no baixo e o carismático Shin na guitarra, a banda colocou o público a jogar os braços para o ar desde o início com “Bull’s Eye”, abertura de Aria the Scarlet Ammo AA.
Trazendo algumas músicas também como “SABLE”, “INSIDE MY CORE” e “No pain, no gain”, abertura de
Btooom!
e um de seus maiores hinos dos animes, a estética do projeto é claramente pensada para um público mais global, vide a alternância das músicas entre o japonês e um inglês muito bem enunciado.
Dos momentos mais rápidos e melódicos aos dramáticos com baladas de meio-tempo, a banda tomou conta do espaço, com direito a chuvas de confete e bolhas de sabão o tempo todo. A energia e conexão entre todos era sentida, de forma a alcançar também o coração da própria Nano. Em dada altura, com os olhos marejados e a voz embargada, a artista fez questão de comentar o quão surreal sente olhar para si e ver onde sua música chegou, alcançando pessoas do Brasil, desde o Japão.
Dizendo não saber o porquê de o Brasil a abraçar, esta reforçou aceitar e amar isso e refletir em sua doação e entrega para todos ao longo da apresentação. Dito e feito, passando ainda por “Inferno”, “SAVIOR OF SONG” e “Do or Die”, tema de
Arpeggio of Blue Steel: Ars Nova, a artista ainda decidiu provocar um pouco mais o público, relembrando a todos do que viria pela frente ao fazer um cover de “GO!!!” do
Flow, artistas que subiriam ao palco mais à noite.
Atingindo sua meta, Nano deixou o palco e pouco a pouco os ânimos puderam se acalmar, antes da próxima viagem a ser conduzida pelo quinteto de Hokkaido, Galileo Galilei. Outra banda estreante em nossas terras, o quinteto formado por Daiki (guitarra), Masaki Okazaki (baixo), Fumito Iwai (teclados) e os fundadores Kazuki Ozaki (bateria) e Yuki Ozaki (vocal, guitarra e teclados).
Levando a todos para um outro rol de sentimentos, o Galileo traz em sua sonoridade um lado mais introspectivo, melodioso e melancólico. Com guitarras etéreas e batidas cadenciadas, o projeto traz esse rock mais alternativo e indie que parece te transportar para cenários, sentimentos e revisitações.
Mais contidos e sem grandes interações diretas com o público, a banda trouxe de seu acervo músicas como “Asu”, abertura de Mobile Suit Gundam AGE, “Circle Game”, tema do filme de Anohana e intensamente celebrada pelos fãs presentes, e músicas como “Boku Kara Kimi e” e “Arashi no Ato de”.
Um ponto bacana sobre a apresentação e que se observava no próprio nervosismo da banda estava no fato desta ter sido a primeira apresentação do grupo fora do Japão, o que explica o misto de nervoso e até mesmo um “não saber” tão bem como se portar. Mas, felizardos talvez, o quinteto por ter escolhido logo nossa terra, por, ao trazer essa identificação especialmente com músicas de animes, como foi também o caso com “Amadeus”, de
Blue Orchestra, “Aoi Shiori”, de
Anohana, e “Climber”, segundo encerramento da febre chamada
Haikyuu!!, o calor do público parecia chegar pouco a pouco para quebrar o nervosismo do grupo, que passou cada vez mais a se soltar.
O ponto alto veio em “SPIN”, música em que parecia verdadeiramente que o grupo estava alegre, com uma batida mais quente e animada que colocou o público a pular à medida que as bolhas de sabão sobrevoaram o espaço da Arena AF, com Daiki vestido com uma camiseta do São Paulo, Masaki com a do Corinthians e Fumito com a do Brasil, rodando uma bandeira brasileira hasteada.
Fosse o clima da Copa do Mundo ou a percepção do Brasil como o país do futebol, esse momento de descontração foi altamente recebido, mostrando também uma diferente faceta da banda, construída ao longo de sua apresentação e selando o início de mais uma excelente e, pela resposta do público, longa relação.
Com isso, o espaço da Arena AF pouco a pouco começava a ser preenchido até muito próximo de sua capacidade máxima. O misto entre ansiedade e empolgação tomava conta e com uma justificativa para lá de plausível. Até o momento, tínhamos visto artistas dos mais variados gêneros que viram nas aberturas e encerramentos de animes uma forma de mostrar o seu trabalho e deixar a sua marca.
Porém, acima disso existe uma categoria de bandas que produziram materiais tão atemporais que definiram gerações e criaram verdadeiros elos afetivos com a obra em si, na qual música e animação são praticamente inseparáveis. Quando acontece uma vez, já é um grandioso feito por si só. Mas quando a banda é lendária, como o caso do FLOW, ela repete este feito bem mais que uma ou duas vezes.
O quinteto japonês formado pelos irmãos Kohshi (vocal) e Take (guitarra/teclados), juntamente a Keigo (vocal), Iwasaki (bateria) e Got’s (baixo), há quase três décadas, são sinônimo de explosão e empolgação no cenário do rock japonês. Mesclando ainda elementos de eletrônica, rap e ska, a banda é uma fusão versátil que tem como resultado de sua cozinha um tipo de show performático em que a moral da história é não ficar parado.
Já em condições de tirarem o CPF brasileiro, a banda já tem uma longa tradição em vindas para o Brasil, em alguns anos até de forma consecutiva, e não seria para menos. Impossível pensar na celebração da intersecção entre música e animes e não pensar em ao menos uma música feita pelo grupo. Além de possuírem estes grandes hits, foi possível perceber também logo de cara, quando subiram ao palco, sem pestanejar e já lançando logo de cara “Re:member”, abertura de
Naruto
que colocou o coro de vozes do público com os “ooh, ohh, ooh, ooh’s”, que a energia da banda era uma daquelas contagiantes e de colocar o teto abaixo.
Dito e feito, o carisma dos integrantes era gigante, com a dupla Take e Keigo indo e vindo, acenando e cantando entre o rap e as linhas de melodia, mas com Take pulando de um lado para o outro, com caras e bocas, Got’s não ficando para trás e até Iwasaki se fazendo presente ao ditar o ritmo de forma dançante com o corpo.
Passaram na sequência por músicas como “DAYS”, abertura de Eureka Seven, e “HERO ~Kibou no Uta~”, abertura de Rakudai Kenja no Gakuin Muso. Take se fez claro na mensagem: sendo uma convenção de celebração da música japonesa e dos animes, a banda estaria com um setlist quase que predominantemente voltado à celebração dos animes. Nem preciso dizer que, nesta hora, o público parecia conseguir gritar ainda mais alto com a afirmação.
A banda ainda enalteceu os grandes e contemporâneos, ao performar alguns covers como “Cha-la Head Cha-la”, a eterna música de Hironobu Kageyama que marcou uma geração mesmo ao ser traduzida para a abertura de Dragon Ball Z, e trouxeram uma belíssima interpretação de “Blue Bird”, abertura também de Naruto de Ikemonogakari, que contou ainda com a participação de NANO.
Interação constante, visuais coloridos e sorriso de orelha a orelha eram alguns dos elementos presentes nos integrantes que sabiam que tinham o público na mão. Prova disso foi em uma espécie de jam que aconteceu para introduzir os membros, com direito a solos que eram aplaudidos e comemorados à medida que se passava por cada um.
Mas, no fim do dia, não tinha jeito. Não tinha como saciar o público sem trazer os principais hinos da carreira, que foram magistralmente espalhados ao longo do setlist. De “COLORS”, abertura de Code Geass, a “Sing”, também de Naruto, e, claro, a intensa, festiva e, para sacramentar tudo, “GO!!!”, também de Naruto, que contou ainda com a participação do trio do Burnout Syndromes, que pareciam tão felizes quanto o próprio público ao dividir o palco com seus conterrâneos.
Mostrando ainda que seguem mais vivos do que nunca no jogo das anisongs, encerraram com “GOLD”, abertura de Boruto, mostrando que seguem sabendo como fazer o que sempre fizeram e ainda mostrando a longa e duradoura relação com uma das franquias mais amadas das últimas décadas.
Energético, enebriante e simplesmente divertido, o FLOW foi o headliner perfeito, entregando tudo o que se é esperado de um show de fechamento. Um momento tão especial propiciado para os presentes, que ouso dizer que colocariam um grande obstáculo na frente do headliner do dia seguinte e um dos nomes mais aguardados por muitos há um certo tempo. Mas isto, é claro, fica para o nosso próximo e último dia de cobertura.
Acompanhe a cobertura dos demais dias de evento logo abaixo:













