Cult of Fire (SP)

"Com uma profundidade temática, simbólica e religiosa seríssima, a banda traz uma realidade e uma bagagem filosófica totalmente diferentes do nosso imaginário latino-americano para dentro da música."

Texto por: Heitor Lamana

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


Agradecimentos: Caveira Velha

 

Tanto nas tradições védicas quanto tântricas, o fogo exerce um papel primordial nas práticas e nas cerimônias ritualísticas. Domínio do Deus Agni — mensageiro dos deuses e guardião da direção sudeste —, ele simboliza a transformação; o fogo interno da digestão, a luz que dissipa a ignorância ou mesmo as chamas que destroem ou purificam a matéria. Muito embora não tenha se originado como uma banda de temáticas orientais, o Cult of Fire — banda de metal tântrico, como se definem, originária de Praga — incorpora esse simbolismo milenar e faz jus ao seu nome em suas músicas e apresentações, criando uma experiência que transcende o mero entretenimento. O grupo se tornou conhecido no meio do black metal atmosférico através do seu segundo álbum मृत्यु का तापसी अनुध्यान (em inglês, Ascetic Meditation of Death), lançado em 2013, mas que ganhou força ao lado de bandas como Batushka e sua cismática Patriarkh graças ao fascínio do público ocidental por temas considerados exóticos — ecoando a máxima de Edward Said, em seu clássico livro Orientalismo. Assim, na última quarta-feira, dia 20 de maio, nos dirigimos a Burning House para uma experiência única e radicalmente distante do que estamos habituados na ótica judaico-cristã.

 

Antes mesmo da abertura das portas, havia um clima de ansiedade generalizada sobre como seria a apresentação dos tchecos. Em sua segunda passagem pelo Brasil, o Cult of Fire encerrava a turnê ‘Mantras For Peaceful Death Over Latin America’, divulgando seu mais novo álbum, lançado no ano passado ‘The One Who is Made of Smoke’ —, abordando como tema o luto e a morte sob a égide da deusa-viúva Dhumavati. Assim que adentramos o ambiente, uma surpresa: uma cortina gigantesca bloqueava a visão do palco, tornando o espaço mais escuro e a atmosfera ainda mais críptica. Religiosamente no horário, os véus se abriram e fomos atordoados com uma vista deslumbrantemente divina.

cult of fire em SP

Uma enorme mesa adornada com estatuetas, incensários, flores e frutas diversas aparecia diante de nós, além de tapeçarias com imagens da deusa Kali. Atrás dela, uma figura portando uma máscara de Citipati — uma das várias manifestações de Mahakala (deidade presente tanto no budismo quanto no hinduísmo) — seguia muda em seus robes coloridos. Em sua cabeça, uma coroa de crânios representando os cincos venenos da mente — o ego, o apego, a aversão, o aferro à vida e a ignorância —, e em sua testa o terceiro olho responsável por perfurar o véu de Maya — que esconde todas as ilusões materiais. Ao seu redor, duas enormes esculturas de najas serviam como assento para mais duas figuras mascaradas, portando guitarras e sentadas em posição de flor de lótus sobre tapetes de tigres — simbolizando a superação do ego e o domínio sobre os instintos selvagens. Um cheiro forte de incenso tomava conta do olfato e cores e mais cores transbordavam o olhar em uma profusão de elementos que preenchiam todos os sentidos.   


Tocando seu último disco na íntegra, a banda manifestou um turbilhão de emoções que fisgou completamente os que estavam na audiência. Havia muitos celulares gravando e tirando fotos, mas, ao contrário do que infelizmente estamos habituados a ver em outras situações, o foco era inteiramente no momento presente; a busca por eternizar aquilo na memória não era maior do que o encanto pelo espetáculo ou o religare com o divino, e sim uma consequência disto.

cult of fire em SP

Seguindo rigorosamente suas bases, a banda traduz bem a cosmogonia tântrica — no eterno balanço entre energia e transformação; movimento e consciência; Shakti e Shiva — ao longo de todo o show. Espelhando o gerúndio da criação, os mantras e cantos entoados iam de encontro ao caos e à dissonância do metal extremo — com seus trêmulos e blast beats em um chocar de águas distintas, formando um novo rio. A imobilidade dos guitarristas, parados como monólitos e com um semblante de sabedoria ascética, contrastava com a velocidade e a fúria de suas notas. Tudo que era feito e que estava sendo representado ali possuía algum significado maior dentro da teologia e da cerimonialística hindu. Do ritual de Abhisheka — que consiste em derramar líquidos sagrados sobre as estatuetas (murti) afim de atrair as energias das divindades cultuadas para dentro delas — à distribuição dos alimentos consagrados após a puja (adoração), vivenciamos muito mais que simplesmente a música e sim uma experiência quase que metafísica. No segundo ato do repertório, um mix de outras partes da discografia da banda como ‘Kālī mā’, ‘Kala Bhairava’ e ‘(ne)Čistý’ — retirado do álbum Moksha, de 2020, e tratando sobre o binômio puro/impuro central ao hinduísmo e seu ciclo de reencarnações. Encerrando os ritos com ‘Buddha 5’, uma roda de oração tibetana acompanhava a bateria girando em sentido horário, liberando boas energias e dissipando as ruins, em um ato de fechamento do palco enquanto altar.

 

Ao fim da apresentação, as luzes se acenderam e, em uma situação extraordinária, o vocalista Vojtěch Holub agradeceu a presença do público e anunciou que iriam tocar, pela primeira e única vez, a música ‘Reach the Sky and Die’ — single lançado no mesmo dia do show em homenagem a um fã e amigo brasileiro da banda que infelizmente veio a óbito. Com uma pegada diferente — mais crua e agressiva — mas ainda com as características e identidade do grupo, tocaram a música sob muito zelo e emoção, fazendo uma homenagem extremamente marcante e significativa ao companheiro que os deixou.

cult of fire em SP

Com toda certeza, esse foi o show mais bonito que já presenciei, esteticamente falando. Sem qualquer tipo de exagero ou hipérbole, o Cult of Fire constrói algo muito além do divertimento e da música - que assumidamente não é o foco principal, porém que não deixa nada a desejar. Com uma profundidade temática, simbólica e religiosa seríssima, a banda traz uma realidade e uma bagagem filosófica totalmente diferentes do nosso imaginário latino-americano para dentro da música. A recepção por parte do público foi extremamente positiva e todos saíram satisfeitos sem nenhuma exceção. Se isso foi fruto de intervenções sobrehumanas, metafísicas ou apenas da qualidade técnica dos artistas, depende do grau de ceticismo em cada um. Fato é que a experiência foi purgante, seja pelo som se equilibrando entre o melódico e o caótico ou pelo espírito da coisa. Independentemente do que cada um acredite, tudo tem seu valor e sua verdade - afinal, a luz habita em todos conforme a saudação: Namastê!

 

CULT OF FIRE – SETLIST



1. Loss

2. Mourning

3. Anger

4. Dhoom

5. Blessing

6. Joy

7. There Is More to Lose

8. Závěť Světu

9. Kālī mā

10. Untitled 1

11. Khaṇḍa maṇḍa yōga

12. (ne)Čistý

13. Satan Mentor

14. Buddha 5

15. Reach The Sky and Die!


Galeria - Cult of Fire


Outras coberturas

Cobertura: Vader (SP)
Por Heitor Lamana 26 de maio de 2026
Sob o som da Marcha Imperial, tão épico quanto o tema de John Williams, o Vader fez um show espetacular ao lado da fina leva do metal extremo nacional.
Cobertura: Vapors of Morphine (SP)
Por Rato de Show 23 de maio de 2026
Quando o “mais é mais” se torna a norma, seria a simplicidade o novo diferencial? Ou simplesmente um lugar de constante e natural retorno?
Por Rogério S.M. 18 de maio de 2026
"Um evento histórico que dificilmente sairá da memória dos presentes."
Cobertura: Midnight (SP)
Por Heitor Lamana 16 de maio de 2026
Continuando invicto com sua sequência de vitórias, o Kool Metal Fest permanece sendo o bastião da boa música e defensor do underground, seja ele do estilo que for - do punk ou do metal.
Cobertura: Stick To Your Guns e Bane (SP)
Por Chato de Show 14 de maio de 2026
No geral, aquela noite não foi apenas uma noite de shows, mas sim, uma verdadeira aula de hardcore, uma ode à história (e ao futuro) do hardcore.
Cobertura: Thy Catafalque (SP)
Por Chato de Show 14 de maio de 2026
O post-metal europeu chega, de surpresa, em terras brasileiras, diretamente em SP.
Cobertura: Lucifer (SP)
Por Heitor Lamana 13 de maio de 2026
Com um repertório apaixonante remetendo aos clássicos do rock e heavy metal, o Lucifer encerrou sua turnê com muita pompa e elegância no palco do Hangar110.
Cobertura: Angra Reunion (SP)
Por Rato de Show 12 de maio de 2026
A banda mostrou que nunca sabemos o dia de amanhã e que é justamente onde mora este inesperado que a beleza da vida e das surpresas que podem surgir.
Cobertura: Nevermore (SP)
Por Fernando Queiroz 11 de maio de 2026
Respeito a um legado, a um passado, a toda uma obra construída. De fato, é uma continuação da banda, não uma guinada para um novo tempo.