Tribulation (SP)
"Em clima de valsa gótica com a morte, o público estava completamente cativo e rendido pela performance. Os suecos ainda mostravam um pouco de gingado, especialmente Joseph, que era um show à parte, entre saltos, jogadas de perna e corridas de um lado para o outro do palco".
Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: Caveira Velha, Xaninho Discos, Solid Music, Talent Nation e Tedesco Mídia
O feriado do Carnaval é provavelmente uma das épocas mais agitadas nas ruas do Brasil. Em especial nas capitais, diversas atividades, seja nas ruas ou em estabelecimentos, são oferecidas em ocasião das comemorações mais simbólicas que temos em nosso país.
E na capital paulista não seria diferente. Em meio a todas essas festas, um “bloquinho” em particular reuniu um pequeno aglomerado de pessoas na Burning House, mas, ao contrário do que se poderia pensar, a “Escola” da vez não veio do Sambódromo, mas diretamente das terras gélidas da Suécia, trazendo um “samba-enredo” regado ao sombrio, ao oculto e à morte.
A passagem única do Tribulation pelo Brasil aconteceu no último dia 14 de fevereiro e veio com uma antecipação que tornou a noite ainda mais especial: desde o início da perna pela América Latina, a banda anunciara que seu baterista, Oscar Leander, não poderia acompanhar o grupo nesta turnê, tendo sido substituído por ninguém menos que Luana Dalametto, uma das principais bateristas brasileiras e do mundo e atual baterista da Crypta.
Se quando um gringo arrisca algumas palavras em português o público já vai à loucura, quando vemos os nossos ocupando essas cadeiras parece que surge um sentimento e uma energia ainda maiores.
O clima na casa era, sem dúvidas, o equivalente à energia carnavalesca de um gótico: luzes escuras e frias, incensos, músicas do melhor do post-punk e darkwave comendo solto pelo PA, o que fez até passar rápido o atraso considerável antes que a porta de acesso ao camarim se abrisse para a entrada de
Luana
no palco.
O coro pela baterista se fazia presente à medida que subiam também ao palco os guitarristas Joseph Tholl e Adam Zaars, até a chegada do baixista e vocalista Johannes Andersson. Com aquele pancake branco e sombras nos olhos dando aquela energia de fantasminha camarada, o quarteto parecia ter sido acordado de seu sono profundo com a missão de sacudir os esqueletos dos presentes.
O repertório foi composto principalmente por músicas de seu último álbum, Sub Rosa in Æternum (2024), um divisor de águas no processo de desenvolvimento sonoro que a banda vem atravessando desde o debut The Horror (2009). Inclusive, arrisco dizer que o público parecia tão animado com o novo material quanto com as músicas mais antigas do repertório.
Dizer isso é um sinal interessante, principalmente quando pegamos uma banda que nasceu do death metal mais tradicional possível e que, com o tempo, foi acrescentando elementos do occult rock e do gótico, elevando a sonoridade a um ponto de equilíbrio harmônico.
Equilíbrio que foi capaz de trazer momentos mais introspectivos, em que as linhas de baixo se tornavam mais aparentes e as guitarras mais gélidas, enquanto a voz rasgada de Johannes carregava um senso de poesia, noite e tristeza em músicas como “Suspiria de Profundis”, a mais longa do repertório, com seus mais de dez minutos. Ali houve peso atmosférico e até psicodelia, dando destaque absoluto a todos os membros, entre solos carregados e hipnotizantes e as batidas frenéticas e cheias de ritmo de
Luana.
Em outros momentos, como em “Saturn Coming Down”, a energia vinha mais quente, ainda que melancólica, cheia de ritmo, riffs chicletes e batidas cadenciadas que pareciam acordar todos os espíritos dos arredores para possuir os pés do público. Tornava-se difícil não querer dançar pela pista e muitos, eu incluso, nos pusemos a arriscar alguns breves passos, com Andersson alternando entre seu fry scream e uma voz limpa, grave e encorpada.
Em clima de valsa gótica com a morte, o público estava completamente cativo e rendido pela performance. Os suecos ainda mostravam um pouco de gingado, especialmente Joseph, que era um show à parte, entre saltos, jogadas de perna e corridas de um lado para o outro do palco. Já Adam acompanhava as músicas cantando junto ao público, sempre caçando algum fã para juntos sibilarem refrões e estrofes.
Johannes, por sua vez, não era de muitas palavras entre uma música e outra, mas sempre com aquele sorriso de quem vai aprontar, arriscava um ótimo português, bem recebido pelo público, deixando no imaginário a quase certeza de que deve ter tido em
Luana
uma ótima professora. Em mais de um momento, fazia questão de anunciá-la, provocando o júbilo do povo em apoio à brasileira.
Talvez o momento mais inesperado tenha ocorrido após “The Lament”, do álbum Down Below (2018), quando os músicos foram descendo um a um do palco antes do tradicional encore, deixando Joseph para trás em um grande solo. Após executá-lo, projetou a guitarra para o público, permitindo que a galera desse aqueles “tapinhas” nos acordes, até o ponto em que simplesmente colocou o instrumento nas mãos de um fã e saiu. O mais curioso foi que a guitarra ainda foi tocada de forma quase harmônica com o ritmo que vinha sendo executado, mostrando o quão sintonizados estavam banda e público.
Após a devolução do instrumento e o retorno do grupo, tocaram as únicas do Children of the Night (2015) da noite: o sucesso absoluto “Melancholia”, seguido por “Strange Gateways Beckon”, encerrando a apresentação. Conforme eram saudados por palmas e gritos, Johannes chegou a mencionar o desejo de colaborar novamente com Luana no futuro. Depois da aula dada por ela, entre sutileza, precisão, agilidade e força, que Oscar me perdoe, mas foi impossível não admirar a baterista e o acaso acertado que foi tê-la ocupando seu lugar nesta turnê.
Mais um para a lista das raridades vistas no underground, o show do
Tribulation
foi impecável do começo ao fim, deixando todos satisfeitos, no aguardo de um retorno futuro e, principalmente, felizes pelo término cedo (mesmo considerado o atraso), onde se quisessem, dava tempo de organizar um bloquinho gótico na saída da
Burning House para aproveitar o restante do Carnaval.
Setlist Tribulation
- The Unrelenting Choir
- Tainted Skies
- Nightbound
- Hamartia
- Suspiria de profundis
- In Remembrance
- Hungry Waters
- Saturn Coming Down
- Murder in Red
- The Lament
- Melancholia
- Strange Gateways Beckon














