Tiamat (SP)

A força indomada da melancolia

Texto por: Rato de Show

Fotos por: Amanda Sampaio

Agradecimentos: Tedesco Mídia e Cacique Entertainment


Dezembro normalmente é sinônimo de recolhimento, uma época em que desaceleramos das rotinas corridas e nos voltamos para o lar, celebrando, agradecendo e, para aqueles ainda mais afortunados, trocando presentes e afetos. Mas mesmo entre guirlandas, pisca-piscas e decorações em vermelho, a intensa agenda de shows na capital paulista parecia querer dar seu último empurrão, ainda que isso significasse riffs tocando algo próximo de jingle bells.


Justamente nesse clima de final de ano, parecia que Papai Noel havia passado mais cedo, deixando um belo presente com o anúncio do retorno, após 16 anos, do Tiamat, grande lenda do metal gótico sueco que até então havia passado apenas uma vez por nossas terras.


Ainda que sendo um nome longe dos holofotes da grande massa, assim como a criatura da Caverna do Dragão, a banda passou por diversas fases e facetas, desde um início mais oculto e extremo, flertando com o death metal, até sua transição progressiva ao doom, ao gótico e, por fim, ao alternativo. Quando se pensa em uma banda de clima atmosférico, frio, orquestrado e carregada daquela energia gótica e cadenciada, antes de quase todos, lá estava o Tiamat, experimentando, criando e pavimentando o caminho de todo um gênero.


E justamente por isso, a chegada do dia 15, ainda que em plena segunda-feira, fez com que o underground se movimentasse para prestigiar essa referência mundial, naquele típico show em que se ouve, entre cochichos, algo como: “é… quem viu, viu”. Até pouco antes do início da apresentação, o pequeno aglomerado de pessoas à frente do palco teve uma agradável surpresa quando, ao som de Another Brick in the Wall, o próprio vocalista Johan Edlund surgiu por entre as cortinas, sentou-se e começou a cumprimentar a todos. Munido de um carimbo com o símbolo da banda, passou a marcar os presentes quase como um rito pré-show, oficializando que o Tiamat havia chegado. Aproveitou o momento para autografar alguns LPs antes de se recolher novamente.

tiamat  em SP

Não demorou muito para que as cortinas se abrissem de vez, revelando, ao lado de Per Wiberg (teclados), Lars Sköld (bateria), Gustaf Hielm (baixo) e Simon Johansson (guitarra), um quinteto para lá de experiente e competente, que deu início aos trabalhos com Church of Tiamat, deixando claro que a missa estava apenas começando.


A primeira metade do show foi dedicada principalmente às eras Clouds (1992) e Prey (2004), passando rapidamente por outras fases. Cores frias, iluminação propositalmente escura e um clima taciturno definiram a noite, em uma mistura de introspecção, existencialismo e arte performática simplesmente contagiante. O público, ainda que enxuto, era extremamente dedicado, surpreendendo Johan não apenas pela energia, mas também pela idade.


“Meu Deus, como vocês nos conhecem? Vocês são tão jovens… talvez tenham nos conhecido pelos seus pais”, brincava o vocalista à medida que o show se desenrolava, repetindo a fala sempre que seus olhos cruzavam com alguém da plateia, que estava, de fato, bem representada por diferentes gerações. Mas é aquilo: música boa é atemporal.


Quando não estava surpreso, agradecendo com um “obrigado” ou exibindo sua voz de timbre baixo e hipnótico, Johan era simplesmente impossível de se ignorar. Performático, caricato e enigmático, com seus óculos e chapeuzinho, alternava entre poses dramáticas e momentos de movimentos mais trêmulos, que talvez denunciassem certa dificuldade de locomoção. Ainda assim, mesmo com uma constituição mais frágil, a vivacidade com que se conectava ao público era inegável. Entre corações tortos feitos com as mãos, beijinhos desajustados e, em dado momento, até uma pausa para comer um pão de queijo durante uma música, sua figura lembrava bastante um Rogério Skylab sueco.

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Longe de ser uma conotação negativa, afinal, quem conhece a irreverente genialidade do músico nacional sabe que ele carrega um lirismo ímpar e sempre se cerca de músicos absurdos, algo que também se aplica a Edlund.


O grande destaque da noite ficou com Gustaf Hielm, tanto pela presença constante das linhas de baixo graves e arrastadas, que ditavam o ritmo em perfeita sintonia com o compasso de Lars, quanto pelas contribuições de backing vocals de ambos, complementando a voz grave de Johan. Aqui, porém, vale um mérito especial a Gustaf pela contraposição ao trazer uma voz mais aguda e mansa, normalmente atribuída a vocais femininos nas versões de estúdio, e que encaixou muito bem ao vivo.


Simon Johansson também não ficava para trás, fosse em carisma, buscando contato visual constante com o público e cantando junto, fosse nos riffs vibrantes, limpos e energéticos que elevavam o som, ou nos solos quentes que faziam contraponto ao lado mais frio e gélido da sonoridade. Per Wiberg, por sua vez, era responsável por elevar tudo isso com o caráter dançante dos teclados, ainda que tenha ficado um pouco mais escondido, tanto em presença quanto em volume.

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A essa altura, o público apenas se permitia ser carregado pelas melodias e letras, fosse pulando, dançando ou simplesmente valseando de um lado para o outro nas músicas de andamento mais lento. Sempre conectados, olhos brilhando e um semissorriso quase inconsciente, eram embalados pelo abraço sonoro da banda. Chegava a ser poético o quão reconfortante soavam as letras proferidas por Johan, independentemente do teor, fosse espiritual, filosófico ou carregado do peso da vida. Mesmo nos momentos mais frios e sombrios, a sensação ainda era de conforto.


A segunda metade da apresentação foi dedicada majoritariamente à era Wildhoney (1994), trazendo um lado mais vibrante, quente e intenso, seja nas interpretações com drive vocal mais acentuado, como em Whatever That Hurts, seja em faixas mais passionais como Vote for Love, única representante do álbum Judas Christ (2002) no set.


Para uma banda quase quadragenária, a vitalidade ainda estava ali, mesmo que não se traduzisse em corridas de um lado para o outro, saltos ou malabarismos, algo que, convenhamos, nunca foi exigência da proposta do Tiamat. Simplicidade, execução e carisma foram mais do que suficientes para entregar um show que se revelou uma verdadeira joia escondida em um calendário anual tão atribulado.


Da mesma forma que começou de maneira atípica, com Johan carimbando seus fiéis, a missa tiamatânica só poderia se encerrar após o “bom velhinho” Johan distribuir mais alguns presentes ao público, quase como um voto de gratidão pelas “exigências” feitas ao longo do culto, fosse na forma de agitação, cantoria ou mesmo nos momentos de silêncio e sorrisos enquanto o público gritava o nome da banda.


Um show raro, enebriante à sua própria maneira, e que deixa como desejo de Natal nada menos do que um retorno da banda em outra ocasião. Fica também a esperança de que, mesmo poucos em número, aqueles que estiveram presentes tenham feito suas vozes alcançarem os músicos de corpo e alma, conexão esta que claramente também aconteceu do outro lado do palco. Um ótimo jeito de encerrar 2025.

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Tiamat - setlist:

  1. Church of Tiamat
  2. In a Dream
  3. Clouds
  4. The Sleeping Beauty
  5. Divided
  6. Will They Come?
  7. Cain
  8. Love in Chains
  9. Phantasma De Luxe
  10. Brighter Than the Sun
  11. Whatever That Hurts
  12. The Ar
  13. Do You Dream of Me?
  14. Visionaire
  15. Cold Seed
  16. Wings of Heaven
  17. Vote for Love
  18. Gaia

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