Orchid (SP)
Uma experiência extremamente intensa e capaz de deixar muita banda que se autodenomina “metal pesadão” no chinelo. É possível dizer que fã e banda se tornaram um naquela noite, sendo o papel de um fundamental para a execução perfeita do outro, no que certamente se tornou um show à altura do status de lenda do underground da banda.
Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow
Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito
Agradecimentos: New Direction Production e Tedesco Mídia
Quando os nomes “screamo” e “emo” vêm à cabeça, quase que imediatamente se forma uma imagem envolta em preconceitos, em grande parte como consequência de uma estética que inundou os anos 2000 e expôs visualmente elementos que remetiam ao delicado, ao frágil e ao vulnerável. Mas limitar-se a uma análise puramente visual é olhar apenas a superfície dessa subcultura, pois ela vai muito além de um prisma puramente visual.
Falando em visual, se comparado ao glam rock, que veio como uma forma de contracultura estética e redefinição de paradigmas através de um gender-fuck visual, no emo me parece ser menos um ato político enquanto coletivo e mais uma reafirmação individual pela necessidade de se provar e validar a existência para este meio. Algo como “sim, eu existo e sou assim”.
Porém, a questão da superficialidade paira na ideia de que a estética seja um reflexo direto da sonoridade produzida, algo que o estilo tem muito a surpreender na urgência e na necessidade de colocar para fora o universo caótico que pode habitar a estética “frágil”.
Uma interessante dualidade que, ao ir além do olhar de pré-julgamento, revela ainda raízes no punk e no hardcore, o que transforma o screamo em um território de intensidade incontrolável, muito distante da caricatura que lhe foi atribuída ao longo do tempo.
Essa foi a realidade que encontramos no último dia 24 na lendária casa de shows do
Hangar110 para conferir de perto o
Orchid, nome absoluto dentro do underground, do
screamo e emoviolence
pela rápida escalada que os americanos tiveram entre 1997 e 2002 na forma de três álbuns que pavimentaram o que se veio a ser conhecido posteriormente como screamo, antes de retornarem ao anonimato por mais de vinte anos.
Um desses nomes que com o tempo mais parecem o de uma lenda urbana, principalmente por um impacto pré-internet e uma popularidade que não chegou à produção visual massificada da época, resultando em músicas online, mas pouquíssimos registros visuais. Por muito tempo, o ensino sobre o Orchid veio através do boca a boca, no estilo mais DIY possível, o que certamente contribuiu para o crescimento dessa lenda.
Avançando para os dias de hoje, esse gigante adormecido resolveu retornar aos palcos, como se sentisse a necessidade de sacudir os alicerces já bem sedimentados em um ato de testar sua resistência, trazendo um furor e uma alegria que, para surpresa da banda, não estava em pessoas de cabelos brancos, mas sim em jovens que mantêm acesa a tradição da busca por espaços onde possam se reafirmar e encontraram no emoviolence um lugar para a expressão de sua incompreensão.
O início da noite contaria ainda com a presença dos “cumpadres” do Orchid, o duo pouco usual do Uniform, e a presença nacional da magnólia, força do screamo paulista que aponta para o momento atual da evolução sonora construída por nomes como os dos headliners.
O início, um tanto quanto atípico para os veteranos organizadores, se deu na forma de um considerável atraso para a abertura das portas, onde mais tarde ouvi o relato de
Caru Frascaroli, vocal e mente criativa por trás da
magnólia, de que este teria ocorrido por parte de um atraso da própria
Orchid, o que foi uma pena, já que a banda mais impactada no processo foi justamente a
magnólia.
magnólia e os contornos da nova geração
Isso porque a abertura das portas veio junto com o início do show, e a longa fila, bem como seu processo de vazão, fizeram com que o público não estivesse em sua totalidade durante o curto set. Outro problema de comunicação resultou também no atraso na liberação das credenciais, que culminou em nossa entrada já nas músicas finais da banda.
Porém, ainda que tenha sido apenas uma rápida primeira impressão, foi o suficiente para deixar suas marcas, onde o que foi visto era uma energia crua, direta e autêntica vinda do quinteto, que não só dava tudo de si, como também tinha uma polvorosa legião de fãs que se colocavam ali entre pulos, rodas e até participações em alguns dos refrões.
Autodenominada como “screamo fofo”, a linha agressiva, berrada do fundo da alma e totalmente passional recebia peso através da bateria, ganhava contornos etéreos de
shoegaze junto a um ocasional teclado que transformava a banda nessa viagem
dream pop colorida que se quebrava em intensidade logo na sequência.
O acervo da banda, com músicas como “os pais de pipo”, “ainda vai passar, peixinho” e “então a lebre vomita seu próprio coração” (colocada como a música romântica da banda), revela um universo lúdico, inocente no nome, mas carregado em suas representações e sentidos, que acaba se tornando outro desses elementos duais que tanto mencionei desde o início como representativos dessa subcultura entre o visual e o externalizado.
A banda mostrou à altura o porquê de ser um forte nome da cena screamo nacional através da conexão com o público, em uma entrega honesta, ainda que breve.
Uniform e sua construção civil sonora
Com a casa já mais lotada ao término da apresentação, à medida que caminhávamos noite adentro, o relógio temporal ia para o sentido oposto na realidade: se com a magnólia tivemos o sabor da contemporaneidade, a chegada do Uniform veio para mostrar a energia de uma década anterior, com atitude de sobra e uma performance no mínimo curiosa.
Diretamente de Nova York, o hoje quarteto performou apenas com sua formação original, contendo Michael Berdan nos vocais e Ben Greenberg na guitarra, deixando o restante nas linhas programadas, o que inclusive é o formato primário de composição do grupo, com programação de Greenberg junto a sintetizadores de baixo e a parte de eletrônica, samples e demais sintetizadores com Berdan.
Curiosamente, para o setlist da noite foram com Wake in Fright (2017) na íntegra, álbum desta mesma era como duo, o que acabou se encaixando como uma luva para a composição. O público, por sua vez, se mostrava dividido entre aqueles que conheciam e apreciavam a sonoridade do Uniform e aqueles que estavam tentando digeri-la.
Isso porque estamos falando de um nível de experimentação e industrialidade que até para o circuito screamo podia gerar certo desconforto — mas justamente por esse ser o objetivo. Com clara inspiração em nomes como
Nine Inch Nails e
Ministry, o
noise rock/metal industrial do
Uniform
parece ser o som apropriado para uma cidade caótica e metropolitana como Nova York e, consequentemente, São Paulo.
Com um vocal impregnado de energia punk, urgente e direta, o resultado era uma cacofonia sonora somada a arranjos eletrônicos que pareciam incluir uma betoneira como parte do grupo, junto a linhas de guitarra insanas, rápidas e frenéticas. Berdan era totalmente expressivo, com uma postura expansiva, ainda que não tenha se movimentado tanto devido a uma tipoia restringindo seu braço, resultado de um show em setembro passado em que deslocou o ombro e finalizou a apresentação naquele estado — uma clara prova da intensidade de seu show.
Músicas como “The Killer of America”, “Bootlicker” e “Night of Fear” geraram grande impacto em meio ao frenesi do set, com destaque absoluto para
Greenberg
em sua velocidade e nos momentos de linhas mais limpas de guitarra intercalando a distorção e o reflexo em seu corpo, que simplesmente não parava quieto.
A interação com o público foi mais distante, com exceção do momento em que
Michael
mandou um “Fuck ICE”, o suficiente para levar o furor da plateia, somado ao grande presente na forma de uma versão industrial de “Symptom of the Universe” do
Black Sabbath, onde, nas palavras de
Berdan, “definitivamente esta próxima é uma música nossa” — uma ironia que talvez não tenha sido captada por todos os presentes, até pela versão distorcida e metalizada, mas que certamente gerou grande impacto e se destacou do restante do set.
Orchid: O caos é o Hangar
Com a chegada do fim da apresentação e a antecipação pelos headliners, o Hangar110 se encontrava simplesmente entupido de gente, apenas no aguardo dos primeiros acordes se iniciarem. Bem próximo do horário inicialmente previsto, apareceram ao palco Will Killingsworth (guitarra), Brad Wallace (guitarra), Geoff Garlock (baixo), Jeffrey Salene (bateria) e Jayson Green (vocal), uma visão curiosa pelo fato de estarem presentes todos os membros originais da banda — talvez um reflexo de relações que não foram expostas a longas décadas de estrada e aos desgastes naturais do processo de convivência e mudança no mundo da música.
Ao som de “Big Battle” do Toto rolando pelo PA, o clima leve e de afago rapidamente mudou para o do caos controlado com “Le Désordre, C’est Moi”, ou “a desordem sou eu”, do álbum Chaos Is Me (1999), um nome perfeito e altamente representativo da verdadeira desordem que tomou conta daquele instante em diante.
Parecia que, possuídos pelo “ritmo orchidtanga”, você simplesmente via de tudo: moshes, corpos indo de um lado para o outro, pessoas pulando, curtindo e vibrando, mas com certeza a cena mais ininterrupta foi a do ensandecido público que subia no palco apenas para se projetar de todas as formas, das mais gentis às mais agressivas, na sequência mais absurda de stage divings que já presenciei.
Seguiram com “Aesthetic Dialect” antes de uma alternância de álbuns entre
Dance Tonight! Revolution Tomorrow! (2000) e
Gatefold (2002), onde parecia que, a cada música, o público ia se inflando e se tornando mais caótico.
Verdade seja dita, era quase impossível discernir bem como os músicos se portavam, pois só de conseguirem manter a intensidade do show e o frenesi ao mesmo tempo em que desviavam ou conduziam os fãs kamikazes para seus saltos já era um desafio e tanto. Mas impossível não destacar a execução perfeita de cada música, com destaque principalmente ao baixo marcante de Garlock e à bateria agressiva de Salene, que acompanhavam a energia sísmica dos vocais de Green, enquanto Wallace e Killingsworth causavam suas distorções e dissonâncias.
Apesar de ter uma postura ligeiramente mais reservada, Green mostrava ótimo controle do público e um show de posicionamento, desde momentos como em “Lights Out”, comandando o público a cantar a principal frase da música “And you are” até breves pausas de interação, como quando reforçou as palavras do colega Michael Berdan mandando o ICE para aquele lugar, junto também a toda forma de opressão e abusos, em uma passional fala sobre acolhimento de minorias, posicionamento que se refletia na diversidade de gêneros, corpos e expressões presentes na plateia.
Houve até um clímax, já transcorrida parte do set, com todos suados e cansados e o crescente calor tomando conta do Hangar110, quando Green pegou um leque com a bandeira LGBTQIA+ para tentar se refrescar, levando o público ao delírio.
Entre trocas acolhedoras, de respeito e reconhecimento, a materialização intergeracional de frustrações nunca esteve tão próxima, no que parecia ser uma catarse coletiva para expurgar até a última assombração do coração de cada um ali.
Dividindo o set entre
Chaos Is Me e
Gatefold em sua maioria, porém com bastante acervo de
Dance Tonight! Revolution Tomorrow! e
Totality (compilado lançado em 2005), a apresentação totalizou vinte e sete músicas, contendo todos os clássicos absolutos, de “I Am Nietzsche” a
“New Jersey vs. Valhalla” e “Destination: Blood!”.
Parecia que o Orchid sabia bem o que o público precisava, assim como parecia que eles não tinham noção do que o público era capaz, vistas as contínuas falas de Green tentando se assegurar de que todos estavam bem, salvos (e vivos).
Uma experiência extremamente intensa e capaz de deixar muita banda que se autodenomina “metal pesadão” no chinelo. É possível dizer que fã e banda se tornaram um naquela noite, sendo o papel de um fundamental para a execução perfeita do outro, no que certamente se tornou um show à altura do status de lenda do underground da banda.
Mais um show da série “quem viu, viu”. Ainda que para os fãs reste o desejo de um retorno futuro, o próprio
Jayson Green
já deixou claro em entrevistas que o desejo é se satisfazer em apresentações para depois não voltar mais aos palcos, o que também pode fazer desta a primeira e única aparição do
Orchid
em nossas terras. Caso isso se cumpra, certamente se tornará um dos eventos mais falados por um bom tempo, até quando os jovens emos de hoje também tiverem seus cabelos brancos e continuarem a repassar, através do ensinamento oral, o nome que fundiu estilos e pavimentou toda uma geração e como eles também fizeram parte disso.
Setlist magnólia
- lobo
- andorinha perdida
- peta, o último bixinho
- camaleão
- as mágoas do circo
- os pais de pipo
- ainda vai passar, peixinho
- então a lebre vomita seu próprio coração
Galeria - magnólia
Setlist Uniform
- Tabloid
- Habit
- The Light at the End (Cause)
- The Killing of America
- Bootlicker
- Night of Fear
- The Light at the End (Effect)
- Symptom of the Universe (Black Sabbath cover)
Galeria Uniform
Setlist Orchid
- Le Desordre, C'est Moi
- Aesthetic Dialectic
- Lights Out
- A Visit From Dr. Goodsex
- Destination: Blood!
- The Action Index
- Don't Rat Out Your Friends
- Loft Party
- I Wanna Fight
- Framecode
- Epilogue of a Car Crash
- Ding Dong Dead
- Invasion U.S.A.
- Tigers
- Weekend at the Fire Academy
- Trail of the Unknown Body
- New Ideas in Mathematics
- Death of a Modernist
- We Love Prison
- Eye Gouger
- None More Black
- Amherst Pandemonium (Part 1)
- Amherst Pandemonium (Part 2)
- New Jersey vs. Valhalla
- Anna Karina
- I Am Nietzsche
- …And the Cat Turned to Smoke


























