Mr. Bungle (SP)
Texto por: Eduardo Domingues - @cranizin
Fotos por: @ianrassari
O Mr. Bungle é uma banda experimental formada em 1985, e é considerada uma das bandas mais esquisitas da cena do Metal. A banda contou com diversas formações ao longo do tempo, sendo seus únicos integrantes constantes o vocalista Mike Patton (Faith No More, Fantômas), o guitarrista Trey Spruance (Secret Chiefs 3, Faith No More) e o baixista Trevor Dunn (Melvins, Fantômas). Sua formação atual conta também com o guitarrista Scott Ian (Anthrax) e o baterista Dave Lombardo (Slayer), que entraram após um hiato de quase 20 anos da banda, em 2020.
A banda é famosa por não ser limitada a apenas um estilo musical, as vezes alternando entre diversas influências dentro de uma mesma música, tocando gêneros como punk, death metal, jazz, blues, ska, disco, funk, e diversos outros gêneros que seriam impossíveis de listar em apenas um parágrafo. Seu álbum mais recente, "The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo" é o mais consistente dentro de um único estilo, sendo mais voltado para o crossover thrash.
O Bungle pode nunca ter explodido a ponto de ser uma banda gigante, mas acabou sendo uma grande influência para diversas bandas que vieram depois, sendo citada como referência por bandas como Slipknot, Korn, Limp Bizkit, System of a Down e Avenged Sevenfold.
A banda veio ao Brasil como abertura para o
Avenged Sevenfold e contou com algumas datas solo em alguns países, incluindo uma em São Paulo, no
Cine Joia, no dia 23 de janeiro.
O show contou com a banda brasileira Test para abertura, e é difícil imaginar uma banda melhor para abrir um show do Bungle do que eles. Formada apenas por dois integrantes, o guitarrista e vocalista João Kombi e o baterista Barata, a banda é descrita como death metal e grindcore, mas possui um som extremamente experimental e técnico. Assistindo à banda ao vivo, é difícil de dizer como que eles conseguem tocar qualquer música tão perfeitamente, pela complexidade das músicas.
O público presente na casa estava bem divido entre quem estava gostando da banda, e quem não conseguia nem compreender o que estava ouvindo. Mas algo que é certeza que era consenso entre todos presentes, é que tanto João quanto Barata são extremamente talentosos em seus instrumentos.
Nos minutos finais de seu show, o
Test
realizou uma de suas marcas registradas: A Pausa. Como haviam poucas pessoas que já conheciam a banda previamente, muitos não sabiam dessa pausa que o
Test
faz em todos seus shows, e era possível ouvir tanto gritos de celebração, como gritos de "ACORDA, TOCA LOGO!". Mas esse momento se torna a parte principal da apresentação, com os gritos virando parte da própria música. É certo dizer que o
Test
conquistou novos fãs com esse show de abertura.
Após o show do Test, a ansiedade para o show do Bungle começou a aumentar. Até que, finalmente, após um pequeno atraso, a ópera de Richard Strauss, famosa por ter sido utilizada no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, começou a tocar nas caixas de som. E com essa trilha, o Mr. Bungle começa a subir ao palco.
Desde o início, eles já demonstram sua "esquisitice", até mesmo na escolha de roupas. Mike Patton com uma camisa social larga, tranças que lembram orelhas de Coelho, uma meia amarela escrito "Foda-se" e Trevor Dunn com seu boné do Blackpink, famoso grupo de K-Pop. Após todos entrarem no palco, eles se sentam em banquinhos e abrem seu show com a música "Tuyo", de Rodrigo Amarante, abertura da série Narcos, com Mike Patton cantando em espanhol perfeito. A abertura foi uma surpresa para aqueles que já esperavam algo mais agressivo de início. Começaram, então, a tocar a faixa inicial de seu último disco, a "Grizzly Adams". Em seguida, começaram a já tocar a “Anarchy Up Your Anus”, que deu início aos moshs que rolaram por todo o show.
O set do show foi mais focado no seu último álbum, mas os covers são onde a banda teve mais de sua variedade, evidenciada pelo segundo cover da noite, da banda de rock pop
10cc, "I'm not in love". A música transicionou perfeitamente para a faixa "Eracist", e nessa sequência tivemos a primeira amostra da real capacidade vocal de
Patton. Por mais que esteja agora em seus 58 anos de idade, ele ainda consegue transitar rapidamente e perfeitamente entre técnicas vocais diferentes, com notas bem distantes, sem danificar sua voz.
O vocalista também interagiu bastante com a plateia, falando algumas frases em português, já que ele é quase fluente no idioma. Por exemplo, após tocar a música "Spreading the Thighs of Death", que foi uma das mais caóticas do show, ele pegou o microfone para pedir "Uma pequena pausinha" ao público.
Na “pausinha”, Lombardo e Spruance começaram a tocar uma música mais calma, que aos poucos foi se formando na clássica "Retrovertigo", do álbum California, uma das duas únicas faixas que tocam de seus álbuns mais antigos. Para os mais fãs da banda, foi um ótimo agrado, já que a readicionaram em seus setlists apenas este ano desde que voltaram a fazer shows. Infelizmente, tocaram ela apenas parcialmente. A faixa acabou transicionando para o cover de "State Opression", do Raw Power, que foi liderado pela bateria agressiva de Dave Lombardo no início.
Na sequência, tocaram a "Hypocrites/Habla español o muere", que é basicamente uma regravação da "Speak English or Die!" do S.O.D., banda paralela de Scott Ian. A versão do Bungle intercala uma música antiga de sua primeira demo e a música mexicana "La cucaracha" em seu início. Por estar no Brasil, as letras foram alternadas para "Speak Portuguese or die!", com Patton gritando, em português, "FALA PORTUGUÊS OU MORRE, PORRA!" em seu último refrão.
Após mais um cover, dessa vez de "USA" do
Exploited, iniciaram a segunda música mais agitada de toda a noite, "Raping Your Mind", primeiro single do
Raging Wrath. Mosh por toda a parte, pessoas tentando fazer crowd surfing, seguranças tentando impedi-los. E, como as outras vezes que estavam chegando no pico de energia, tocaram mais uma música lenta, um cover de
John Farrar, "Hopelessly Devoted to You".
Então deram início a uma das faixas mais amadas do primeiro álbum, "My Ass is on Fire", que é realmente uma das músicas mais perfeitas para descrever o som do Mr. Bungle. Intercalaram no meio da música um trecho de "Funkytown", do Lipps Inc., que surpreendentemente contou com toda a plateia cantando junto.
No início do show, o Scott Ian havia perguntado ao público se eles gostavam de Sepultura, acrescentando que amava a banda. Obviamente, que a plateia começou a pirar só de ouvir o nome da banda brasileira. E, no final do show, eles mostraram seu amor pelo Sepultura, iniciando o cover de "Refuse / Resist". E esse cover acabou sendo a música mais agitada e caótica de toda a noite, já se iniciando com um grande coro de "Porra! Caralho!" de todos presentes ao ritmo da música.
Finalizaram o set com a música de Eric Carmen, "All by Myself", com a letra alternada para "Vai tomar no cu". Mike Patton mostrando que mesmo sabendo falar português, prefere só falar os palavrões mesmo, do início ao fim.
Qualquer fã de thrash e música experimental deve assistir o Mr. Bungle pelo menos uma vez, se possível. Com shows bizarros e agressivos, é impossível de não se animar durante o set. Além de ser uma banda tão influente, com integrantes tão lendários no meio, contam com um evento divertido e agitado. Só não espere que algo faça sentido durante a apresentação, senão você vai se decepcionar.

Setlist Test
Setlist não disponível.
Setlist Mr. Bungle
- Tuyo (cover de Rodrigo Amarante)
- Grizzly Adams
- Anarchy Up Your Anus
- Bungle Grind
- I’m Not in Love (cover de 10cc)
- Eracist
- Spreading the Thighs of Death
- Retrovertigo
- State Oppression (cover de Raw Power)
- Hypocrites / Habla español o muere
- Glutton for Punishment
- USA
- Raping Your Mind
- Hopelessly Devoted to You (cover de John Farrar)
- My Ass Is on Fire
- Sudden Death
- Refuse/Resist (cover de Sepultura)
- All by Myself (cover de Eric Carmen)














