Dark Tranquillity (SP)

Texto por: Pedro Delgado (Rato de Show) - @ratodeshow

Fotos por: Daniel Agapito (Chato de Show) - @dhpito


 

Mikael Stanne é verdadeiramente uma formiguinha trabalhadora da cena do metal. Prolífico músico e vocalista da escola de Gotemburgo, o artista se viu, no ano de 2025, em pleno movimento. Entre turnês, lançou o March of the Unheard, segundo álbum de estúdio de sua outra banda de melodic death metal, The Halo Effect. Sob o selo da Nuclear Blast, o álbum foi amplamente saudado, sendo considerado um dos melhores lançamentos do ano.


Mais para o fim do ano, o músico anunciara ainda sua vinda para o Brasil com o Cemetery Skyline, banda nascida um ano após o The Halo Effect em 2020 e que tem uma proposta mais cadenciada, introspectiva e de voz limpa. Esta teve seu álbum de estreia ainda em 2024, mesmo ano do último álbum do Dark Tranquillity, Endtime Signals (2024), banda pela qual o músico é mundialmente reconhecido.


Mal Stanne havia pousado no Brasil e um novo anúncio chegara: o músico estaria com o Dark Tranquillity em nossas terras logo no início do ano, em um show comemorativo dedicado a duas eras distintas e intrínsecas da banda: os álbuns The Gallery (1995) e Character (2005).


Antecipação e animosidade se fizeram presentes do anúncio até o enfileirar de pessoas do lado de fora do Carioca Club, casa escolhida para a performance e que se encontrava bem preenchida, principalmente se considerarmos ser um domingo de um já intenso fim de semana de shows na capital paulista.


Sem bandas de abertura para a noite, o evento produzido pela Overload teve início próximo do horário marcado, quando as cortinas se abriram para o sexteto. Focando as primeiras músicas em The Gallery, álbum que acabara de trintar, “Punish My Heaven” deu logo o tom, para além da maestria sonora, apontando para um dos fatores que mais chamariam a atenção do início ao fim da performance: a conexão com o público.

dark tranquillity em SP

Chegava a ser quase irônico o quão carismáticos, bem animados e alegres eram os músicos no comando de uma sonoridade tão agressiva, pesada e impactante. Talvez o lado “melodic” do death metal falando mais alto.



Mesmo fazendo pouco tempo desde sua última passagem, esta em 2024 durante o Summer Breeze Brasil (hoje Bangers Open Air), o ensandecido público gritava o nome da banda a plenos pulmões, chegando a ser um impacto até para os próprios músicos, que não esconderam o grande sorriso no rosto diante daquela boa e velha energia brasileira.


Edenspring”, “Lethe”, “The Emptiness from Which I Fed” e “The Dividing Line” vieram na sequência, sendo os representantes deste segundo álbum da banda. Atmosférico e carregado, era como um olhar para o passado da gênese do death metal melódico e da tão falada escola de Gotemburgo, representado principalmente nos vocais impecáveis de Stanne, que esbanjava vitalidade.


Aqui, vale já o destaque para uma das figuras mais marcantes de toda a apresentação: a bateção frenética e controlada de Joakim Strandberg-Nilsson no comando das baterias, presente a todo momento e impossível de ser ignorada.

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Entre rápidos agradecimentos e muito frenesi, era claro o quanto esse primeiro bloco representava uma verdadeira viagem no tempo para o vocalista, que parecia em festa junto às mãos da plateia que iam ao ar.


Correndo de um lado para o outro, apontando, agradecendo e principalmente entregando os potentes guturais desta fase, Mikael se colocava lado a lado com outra figura que, no que tange ao movimento de palco, também se mostrava imparável: o baixista Christian Jansson, que cantava todas junto ao público, se projetava para a frente do palco, quase como um tambor de guerra — mas, neste caso, um baixo de guerra.


Na sequência, uma fase dez anos mais jovem. O bloco Character trouxe a maior leva da noite, com seis músicas, passando por faixas emblemáticas do disco como “The New Build”, “Through Smudged Lenses” e “Lost to Apathy”.

Imersiva, rápida e mais elaborada, essa segunda parte fez brilhar as guitarras metalizadas e velozes de Johan Reinholdz e Peter Lyse Karmark, assim como os arranjos de Martin Brändström, único membro mais antigo além de Stanne, que crescia junto à apresentação devido à evolução natural da sonoridade da banda ao longo do tempo e ao papel cada vez mais protagonista dos teclados.

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Impossível não reforçar o quão impecável estava o trabalho da mesa de som naquela noite, permitindo distinguir todos os instrumentos em um equilíbrio cirúrgico, algo fundamental quando se pensa em um som com tantas camadas e arranjos.


Enquanto luz e som construíam toda a ambientação para o bate-cabeça, o público respondia à altura. Quando não cantando a plenos pulmões, mãos iam ao ar, cabeças subiam e desciam e até uma roda se formou, tímida em tamanho, mas constante, sendo inclusive elogiada por Stanne ao longo da noite.


Partindo para o bloco final, uma seleção das fases mais atuais da banda trouxe hits como “Terminus (Where Death Is Most Alive)”, do Fiction (2007), “Atoma”, do álbum homônimo de 2016, e faixas de Endtime Signals como “The Last Imagination”. Ficava claro que o equilíbrio entre evolução e identidade mantido pela banda ao longo de seus 35 anos é formidável.


A sensação era realmente a de uma tempestade silenciosa e, por consequência, tranquila. Uma energia intensa, quase subconsciente, porém apaziguante. Uma verdadeira “tranquilidade escura”, se é que me entendem.

dark tranquillity em SP

Mas, sem dúvidas, o momento mais emblemático da noite ainda estava por vir, e não se deu através de “Misery’s Crown”, talvez a música mais aguardada. Ele veio por meio de uma homenagem que, ainda que esperada, teve um desenvolvimento totalmente inesperado.


O falecimento de Tomas Lindberg, vocalista do At the Gates e um dos precursores da escola de Gotemburgo, no ano passado, abalou profundamente a comunidade do metal. Mais do que colegas de profissão, verdadeiros amigos, o peso para Stanne vinha se manifestando de forma particular em suas turnês recentes, resultando na adição de uma música do At the Gates ao repertório como forma de homenagem.


Blinded by Fear” foi a escolhida. O reconhecimento foi quase imediato por grande parte do público, levando uma plateia já emotiva ao delírio.


Com o rosto de “Tompa” projetado no telão, a interpretação do Dark Tranquillity foi não apenas bela, mas crua e verdadeira, revelando um lado frágil e profundamente humano de Stanne. Ao final da música, o vocalista não conteve a emoção e caiu em lágrimas.


Consternação, talvez um pouco de vergonha, mas sobretudo a catarse de quem encontrou no público acolhimento para aquele momento.


Com as mãos erguidas em agradecimento, Stanne recebia o coro que intercalava os nomes das duas bandas enquanto seu rosto avermelhado permanecia imóvel, com o olhar de quem revisita memórias antigas.


Mesmo após a saída dos outros integrantes, o músico permaneceu ali, emocionado, ovacionado e envolto em um turbilhão de sentimentos que dificilmente sairão da memória de quem compartilhou daquele instante. Uma ligação rara e profundamente humana que seja talvez a síntese do lado espiritual da música.


Diferente de homenagens recentes vistas a torto e a direita em palcos ao redor do mundo como as para Ozzy, muitas vezes marcadas mais por uma relação pessoal e unilateral, o que se viu ali foi uma relação íntima, enlutada e genuína, reforçando o quanto o metal é um espaço legítimo de expressão emocional independentemente do subgênero proferido.


Um jeito impactante, forte e emocionante de iniciar o ano dentro longo calendário de shows.

dark tranquillity em SP

Setlist


  1. Punish My Heaven
  2. Edenspring
  3. Lethe
  4. The Emptiness From Which I Fed
  5. The Dividing Line
  6. The New Build
  7. One Thought
  8. The Endless Feed
  9. Through Smudged Lenses
  10. My Negation
  11. Lost to Apathy
  12. The Last Imagination
  13. ThereIn
  14. Unforgivable
  15. Atoma
  16. Not Nothing
  17. Terminus (Where Death Is Most Alive)
  18. Phantom Days
  19. Misery’s Crown
  20. Blinded by Fear (At the Gates cover – tributo a Tomas “Tompa” Lindberg)

Galeria - Dark Tranquillity